Entrevista – “KYOJITSU-HINIKU, Sob a Pele – Sobre a Carne do Japão”

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A exposição de arte contemporâneaKYOJITSU-HINIKU, Sob a Pele – Sobre a Carne do Japão”, evento comemorativo dentro do contexto dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, foi realizada no Pavilhão Japonês do Parque Ibirapuera em São Paulo, no período de 7 a 23 de setembro de 2018. Projeto de iniciativa e curadoria de Naoko Mabon, profissional independente radicada na Escócia, e com a participação dos artistas convidados Juliana Kase, Detanico Lain (Angela Detanico, Rafaël Lain), Takanori Suga, Satoshi Hashimoto e Hikaru Fujii. Com a vinda de Naoko Mabon, Takanori Suga e Satoshi Hashimoto ao Brasil, tivemos a oportunidade de entrevistá-los, juntamente com a artista brasileira Juliana Kase, sobre diversos aspectos da exposição.

 

1 ) A EXPOSIÇÃO

 

Poderia nos contar como nasceu o projeto da exposição?

Naoko Mabon: Em meados de setembro do ano passado, residi durante um mês em São Paulo como pesquisadora. Durante minhas pesquisas sobre a comunidade japonesa da cidade e a identidade do nipo-brasileiro, tive a oportunidade de visitar o Pavilhão Japonês, localizado no Parque Ibirapuera, e me interessei muito pela história, pelo contexto da construção. Nessa visita, pude conversar brevemente com o senhor Osamu Matsuo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), que coincidentemente estava ali. Desde então, o Pavilhão Japonês tinha me cativado tanto que depois acabei consultando o senhor Matsuo se o Pavilhão poderia sediar uma exposição. Ele respondeu positivamente, e que estava aberto a propostas. Depois disso, retornei à Escócia e logo comecei a pensar em várias ideias. E, até o fim desse mesmo ano, pude visitar o Japão duas vezes, o que me permitiu encontrar e conversar pessoalmente com artistas e profissionais da área e tornar a ideia da exposição mais sólida.

 

O título da exposição é “KYOJITSU-HINIKU, Sob a Pele – Sobre a Carne do Japão”, e cada artista convidado possui abordagem e conceito artístico variados. O conceito da exposição foi definido primeiro e depois os artistas participantes, ou se elencou os artistas primeiro para em seguida definir o conceito?

Naoko Mabon: Minha decisão foi a de definir os dois aspectos paralelamente. Não me recordo exatamente em que momento me decidi por esse título, mas em um contexto diferente da minha pesquisa no Brasil, entrei em contato com o texto do Professor Kiyoshi Okutsu, ex-docente de Estética da Universidade de Yamaguchi, sobre a teoria artística Kyojitsu Hiniku, de Monzaemon Chikamatsu. Essa teoria define que a arte está entre a pele e a carne, um meio indefinível entre a forma exposta e o consciente que a sustenta. Penso que esse meio fica numa camada extremamente fina, ele é tanto a pele quanto a carne, pois está em contato com ambas; mas ao mesmo tempo, não é nem uma e nem outra. Pensei que essa teoria ajudaria na compreensão do nipo-brasileiro no Brasil, cuja identidade não pode ser facilmente determinada ou como Japão ou como Brasil, pois ela existe exatamente no meio de ambos, caracterizando assim a existência única do nipo-brasileiro. Certamente, enquanto pensava no planejamento da exposição, também refleti muito sobre esse espaço especial que é o Pavilhão Japonês. Foi nesse processo, que fui encontrando os artistas convidados para a exposição. Além disso, gostaria de ressaltar a grande importância da participação da Juliana. No contexto dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, eu quis apresentar várias perspectivas: a do artista japonês, a do artista brasileiro, a do artista nipo-brasileiro. Enquanto a obra da Juliana está centrada em suas memórias, as memórias das pessoas que ela conheceu estão fragmentadamente conectadas. Som e imagem, várias coisas sobrepondo-se, causando lacunas. Sua relação entre o Japão e o Brasil, e sua obra foram essenciais para este projeto.

 

 

Qual foi a sua impressão quando viu pela primeira vez os trabalhos dos artistas participantes?

Naoko Mabon: Primeiro tive contato com a dupla de brasileiros Detanico Lain que concentra suas atividades em Paris. Encontrei-os na Villa Kujoyama em Quioto, em junho de 2017, época na qual eles estavam em meio à produção local. Ambos são semioticistas e também designers gráfico, e desenvolvem obras que transformam linguagem e conceito em formas visuais. Para mim, é possível dizer que suas obras pertencem à genealogia da tendência da “poesia visual” do movimento da Poesia Concreta, que teve início nos anos 50. Em Quioto, eles estavam pesquisando sobre Katsue Kitazono, poeta que apresentou essa tendência ao Japão e desenvolveu-a como “poesia plástica”. Foi uma descoberta emocionante para mim, porque era uma área que eu também estava investigando. A “ONDA”, obra exposta neste projeto, é composta por sal que torna a quantidade de letras da palavra “onda” do português visível no formato de onda. Convidei esta obra por elarepresentar a memória do pioneirismo dos imigrantes japoneses na chegada ao Porto de Santos, depois de uma longa jornada à bordo do navio Kasato Maru, e também a memória de muitos outros que se seguiram cruzando o Japão e o Brasil, transpondo inúmeras ondas; e em especial por acreditar que ela expressa poeticamente a possibilidade e a impossibilidade da linguagem, sobretudo devido à dificuldade comunicacional vivida pelos imigrantes da primeira geração na nova terra. Além disso, havia uma motivação simples de querer vê-la exposta no piso de uma construção em estilo japonês.

Depois, durante minha pesquisa em São Paulo conheci a Juliana. Fomos apresentadas por um conhecido em comum, o artista Iran do Espírito Santo, que me disse: “tenho certeza de que vocês têm muitas afinidades”. E foi como ele disse, passamos o tempo conversando como se fosse um reencontro de amigas de longa data. Conversamos sobre imigração e o significado de ser imigrante, sobre a família dela, e sobre o que o Japão significa para cada uma de nós. Também conversamos sobre nossos trabalhos e o que pensamos sobre arte, mas principalmente sobre nossa identidade, posicionamento, postura e expressão que adotamos no mundo. Ela me ajudou em diversos aspectos deste projeto, e concordo com ela sobre a visão de que a real importância do processo pode parecer, à primeira vista, ser o resultado; mas na verdade, o resultado também só é uma parte do processo.

O encontro seguinte foi com a obra “Encenando Japoneses” do senhor Fujii, na exposição dos trabalhos finalistas da Nissan Art Award, realizada em Yokohama, no outono de 2017. Na ocasião, embora os vídeos de sua obra estivessem sendo exibidos em vários monitores, o tempo de permanência de visitas em grupo era limitado, por isso não pude apreciá-los completamente. Mas, já naquela época minha cabeça fervilhava com a ideia da identidade indefinida do nipo-brasileiro e do Pavilhão Japonês, por isso só o título da obra já foi o suficiente para prender a minha atenção. Baseada no “Caso do Pavilhão Humano”, a obra questiona: “Quais são os critérios para definirmos o japonês como japonês?”, uma pergunta aparentemente simples, mas que no fundo se mostra muito complexa, sobretudo numa época na qual o racismo e o problema dos refugiados tornaram-se particularmente relevantes. Desejei cada vez mais que esta obra fosse exposta no Pavilhão Japonês quanto mais eu conhecia a sua estrutura e o seu propósito, e também por eu mesma já ter me questionado sobre isso ao refletir sobre o nipo-brasileiro. Então, entrei em contato com o senhor Fujii e nos encontramos em um café em Tóquio. A legenda em português foi adicionada especialmente para esta exposição. Ele comentou sobre seu trabalho seguinte já em andamento focado na aparência dos escravos como negros, que mesmo já tendo sido registrada nos Nanban Byobu do período das Grandes Navegações, ele adotou um ponto de vista bastante original. Saber disso me deixou mais empolgada ainda, pois provavelmente comigo seria a primeira oportunidade dele expor sua obra na América do Sul.

Em seguida, encontrei-me com o senhor Suga quando visitei o Takeo Maboroshi Terminal, residência patrocinada por meus amigos da época da faculdade, na província de Saga, onde ele participava como artista-residente. Ambos somos de Kyushu e durante nossas variadas conversas, ele me surpreendeu dizendo: “Até posso perder um braço sem problema, mas faço qualquer coisa em qualquer lugar!”. Obviamente entendi que era uma piada, mas imaginei que certamente ele é um artista que atua com paixão e que compartilharíamos alegrias e tristezas com a mesma intensidade.

Por fim, tive a oportunidade de conhecer a obra do senhor Hashimoto no Instagram de pessoas relacionadas à arte japonesa. Era um trabalho em que as bandeiras do Brasil e do Japão se sobrepunham, e logo me extasiei. Comecei então a investigar de várias maneiras para saber mais sobre o trabalho, o conceito de produção do artista. Entrei em contato com AOYAMA | MEGURO, galeria em Tóquio que representa o senhor Hashimoto, e lá pude encontrá-lo pessoalmente. Descobri na oportunidade que ele trata de várias questões sobre a sociedade, a arte com uma postura própria. Ele e o senhor Fujii já se conheciam, e parecia que alguns fatores estavam se conectando. Infelizmente a falta de captação de recursos impossibilitou a vinda do senhor Fujii e da dupla Detanico Lain nesta ocasião, o que seria a situação ideal.

 

Hashimoto, o que você sentiu ao ser convidado a participar deste projeto, que possui uma forte contextualização tanto pelo espaço expositivo quanto pela comemoração dos 110 anos da imigração japonesa no Brasil?

Satoshi Hashimoto: Acredito que as obras do relógio e do pôster estão alinhadas com ambos os contextos e também com o conceito Kyojitsu Hiniku, explicado anteriormente pela Naoko Mabon. A minha intenção, tomando estas duas obras como ponto de partida, era o de reunir trabalhos cujos contextos são distantes entre si para que eles se multiplicassem, de modo a desconstruir o ponto de convergência do local e modificá-lo, ao invés de criar novas obras atendendo ao contexto existente. Para muitos dos meus trabalhos, em vez de dizer que eu os criei, talvez seja mais adequado dizer que estou “coordenando” ou “fazendo curadoria” de itens já criados. Na série “Referência”, que domina a minha parte da exposição, adotei a concepção de objeto já conhecida e propagada pelo ready-Made e o Mono-ha, e “fiz curadoria” deatos que estão sendo realizados na cidade, de movimentos de resistência, etc. de forma adjacente a eles.

Os dois relógios sincronizados vem da conhecida obra “Untitled (Perfect Lovers)”, de Felix Gonzalez-Torres. Acrescentei um segundo título a ela: “Untitled (Rio de Janeiro/Tóquio)”. São Rio de Janeiro de 2016 e Tóquio de 2020, os dois países-sede têm relação geográfica de um estar “do lado oposto” do outro, com diferença de 12 horas no fuso. Os dois relógios marcam números iguais, mas um é dia e outro é noite. Nesta exposição, ao mesmo tempo em que é “feita a curadoria” destes “dois relógios” de Gonzalez-Torres, também é “feita a curadoria” de desconstrução do domínio autoral de Gonzalez-Torres sobre os “dois relógios”. E descobri que a relação antagônica dia e noite também está representada na bandeira dos dois países, desenhada no sol no centro da bandeira do Japão e no céu noturno da bandeira do Brasil. A obra do pôster representa a figura do eclipse resultante da sobreposição do círculo do céu noturno ao círculo do sol, que acontece quando se sobrepõem as duas bandeiras mantendo-se a mesma proporção.

Atualmente em Tóquio, há vários empreendimentos culturais que de algum modo se relacionam às Olimpíadas. Projetei estas duas obras quando participei em um deles, tomando esse cenário em Tóquio como contexto. E à parte destes que apresentei aqui, também instalei obras inter-relacionadas a esse contexto, tratando de assuntos como as Olimpíadas de Istambul, a eleição presidencial dos Estados Unidos, o Rock and Roll e as cores representativas. Além disso, reproduzi em massa e ando distribuindo o pôster das Olimpíadas de Tóquio em 1964.

 

Olimpíadas de Istambul?

Satoshi Hashimoto: Istambul era cidade candidata a sediar as Olimpíadas de 2020. E para elaborar o pôster das Olimpíadas desse local não escolhido, utilizei o desenho da lua crescente da bandeira da Turquia, símbolo usual no território islâmico. Como também havia preparado o pôster das Olimpíadas de Tóquio, acabei reunindo três pôsteres contrastantes: um de sol, um de lua crescente e um de eclipse. Além disso, expus todo o histórico de países candidatos a sediar as Olimpíadas, o qual pode ser interpretado como uma lista de encruzilhadas mundial, que surge uma vez a cada quatro anos. Ao lado dessa lista, estava meu trabalho que trata da eleição presidencial norte-americana, que aconteceu no mesmo ano das Olimpíadas. Era Hillary Clinton ou Donald Trump, ou até mesmo Bernie Sanders nas opções, mas se naquele ano elegessem o território islâmico pela primeira vez na história como sede olímpica, pode ser que a situação mundial tomasse um rumo bem diferente.

 

E sua obra já apresentada no Japão, que tem como tema o ato de dormir, também está nesta exposição?

Satoshi Hashimoto: Sim, assim como foi apresentada no Japão, coloquei em frente aos dois relógios uma placa de madeira deitada com a instrução “durma aqui”. Lendo a instrução, o público opta entre dormir sobre a placa, não reagir e passar reto, ou observar outra pessoa dormindo. O público se encontra durante o dia no Brasil, enquanto é noite no Japão. Ao dormir, o público interrompe a sincronia com as pessoas do local e passa a agir em sincronia com as pessoas do outro lado do planeta, no Japão. Há, na parede direita, a obra composta por uma placa de madeira de mesmo tamanho encostada verticalmente e ao seu lado uma foto de uma pessoa escondida atrás dessa placa, e na parede oposta há papelões encostados verticalmente e uma foto de um sem-teto dormindo em cima de um papelão. As três obras se inter-relacionam, sendo que entre a primeira e a segunda, a placa de madeira é o ponto em comum; e entre a primeira e a última, o ato de dormir mantém a relação. Ou seja, a sincronia ou assincronia acontece também em relação à pessoa escondida e ao sem-teto.

 


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