Entrevista – “KYOJITSU-HINIKU, Sob a Pele – Sobre a Carne do Japão”

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4 ) A PERFORMANCE

 

Falando em Ichi-go Ichi-e, gostaria de perguntar ao Hashimoto, organizador do workshop desta exposição, como foi o workshop?

Satoshi Hashimoto: Vim a São Paulo sem planejar muita coisa do workshop. Ao concluir a instalação geral da exposição e explorar a cidade, cheguei à ideia de usar pedra e papelão, que eu poderia catar pelas ruas da cidade. A primeira parte da oficina foi com o papelão. Todos os participantes se reúnem, seguram um único papelão com uma das mãos e o rasgam. As pessoas se separam de acordo com a forma que o papelão se rasga, e continuam rasgando até cada um possuir seu pedaço. Depois, cada um o nomeia com o nome de um país. Essa situação criada se assemelha bastante com a formação territorial, tanto a natural, oriunda do movimento das placas tectônicas, quanto à construída pelo ser humano, por meio dos conflitos. O território de cada país veio sendo moldado por movimentos violentos e, de certo modo, essa forma é informal, mas será que existe objeto informal no mundo que as pessoas memorizam e se importam tanto quanto este?

 

 

 

Quer dizer que foi se escrevendo o nome em cada pedaço de papelão, um por um?

Satoshi Hashimoto: Não, os participantes formam uma fila em frente ao computador, como numa inspeção imigratória, e cadastra dados em imagem e texto. Recolhi o papelão de um resquício de permanência de um dos vários moradores de rua espalhados pela cidade de São Paulo. Então esse papelão era o mínimo do território que o morador de rua possuía para dormir, e os participantes repartem esse mínimo em pedaços ainda menores e levam para suas casas.

 

Poderia explicar sobre a pedra também?

Satoshi Hashimoto: Coletamos na cidade, pedaços de concretos de calçadas que estavam deterioradas e soltas. Os participantes, um por um, martelaram esses pedaços de concreto, partindo-os em pedaços menores. Cada um escolheu um pedaço de pedra resultante, e o levou para casa após realizar o seu cadastro da mesma forma a qual foi feita com o papelão. Podemos dizer que o concreto é uma pedra da zona urbana.  Esta forma de produzir pedaços de pedra também é a forma de se obter as pedras utilizadas no “ato de jogar pedras”, quando estamos na área urbana. Pensei em conscientizar os participantes sobre a estrutura do evento repetindo ações semelhantes tratando o papelão como superfície plana e a pedra como um objeto tridimensional, bem como conscientizá-los sobre a relação deles com a exposição.

Naoko Mabon: Foi interessante ver todos levando embora pedaços quaisquer de pedra ou papelão. Era como se criassem um apego apenas pelo fato de dar-lhes um nome.

 

Por que trabalha com o tema dos moradores de rua?

Satoshi Hashimoto: Havia falado sobre terrenos desocupados após a demolição de prédios, mas existe um jeito de ser que tenho tanta atração quanto, é o jeito de ser dos moradores de rua. Por exemplo, comerciantes que se beneficiam transportando riquezas entre regiões distintas, ou artistas que realizam exposições ou residências atravessando diversos países, podem ser consideradas pessoas internacionais; o jeito de ser do Estado Islâmico, que atua em diversas nações, também pode ser considerado de certo modo como internacional. Enquanto o internacional tem o poder de superar as influências dominantes trazidas pelas nações e pelas regionalidades, também tem o aspecto de explorá-las habilmente para promover ainda mais algum tipo de hierarquia. Os moradores de rua não transitam entre os países, são seres independentes que não se enraízam nem numa nação e nem numa região. Penso que o jeito de ser que devemos buscar no momento em que tentamos romper a influência dominadora da sociedade não está nos empreendedores, nos acadêmicos, nos artistas que transitam por exposições internacionais, no imperialismo ou no Estado Islâmico. Mas sim nos moradores de rua. De resto, acho que o fato de meu pai ter estado numa situação próxima a de um morador de rua também deve ter me influenciado.

 


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