Entrevista – “KYOJITSU-HINIKU, Sob a Pele – Sobre a Carne do Japão”

[日本語]          [Português]

página 5

[Galeria de imagens]

5 ) A EXPOSIÇÃO NO BRASIL E O CENÁRIO ARTÍSTICO DO JAPÃO

 

Qual foi sua impressão sobre ter realizado uma exposição no Brasil? Poderia também explicar um pouco sobre o cenário artístico japonês? Acredito que especialmente no Japão, estão surgindo diversos festivais de arte.

Naoko Mabon: Fora do Japão, já participei anteriormente de projetos na Europa, Taiwan, etc. Este projeto é o primeiro que realizo fora da Ásia ou da Europa. No Brasil, a maneira de trabalhar foi completamente diferente daquilo que eu tinha vivenciado até hoje. Por um lado, há muitas pessoas bem-humoradas e descontraídas; por outro, senti que trata-se de uma sociedade que dá muita importância ao sistema burocrático, até mais do que eu esperava. Houve vários obstáculos para a realização do projeto, mas acho importante que o Brasil e o Japão continuem se conectando por meio de projetos como este, então certamente penso em realizar outros aqui. Fico grande parte do tempo fora do Japão, por isso passo a pergunta sobre o cenário artístico no Japão para o Suga e o Hashimoto.

Takanori Suga: Participei de festivais de arte em diversas regiões do Japão, mas não sei qual é o nível de compreensão do público em geral quanto à arte. Mas certamente o fomento para as pessoas que se dedicam às suas obras é bem generoso.

Satoshi Hashimoto: No Japão, os curadores de muitos museus públicos ou festivais de arte estão ligados à organizações montadas sob os asas do Governo, com baixo nível de independência. Além disso, a não ser em casos de exposições internacionais, a maioria tanto dos curadores como dos artistas participantes são “japoneses”. No Brasil, pude ver diversas curadorias que tratam questões de gênero e raça, mas no Japão elas são muito escassas e a abordagem social em geral é fraca. Podemos dizer que isso não se aplica apenas ao cenário artístico, mas à sociedade japonesa como um todo. Lá, a conscientização sobre os imigrantes é pequena, e na grande maioria dos casos, as organizações são lideradas totalmente por “japoneses”. Num país assim, o Carlos Ghosn, da Nissan, é um caso raro. No Brasil, há muitos imigrantes da República do Líbano, assim como imigrantes do Japão. O fato de ele ter nascido no Brasil como filho de imigrantes libaneses, atuando posteriormente na França e no Japão, é uma história bem interessante que remete ao percurso dos Jogos Olímpicos atuais, que transitou do Rio de Janeiro para Tóquio, e a seguir para Paris. No entanto não quer dizer que eu tenha simpatia pela empresa.

 

Que tipo de imagem o artista tem no Japão?

Satoshi Hashimoto: Talvez ainda seja muito forte aquela imagem do artista ser um explorador da estética, com pinturas e esculturas que parecem ter o Impressionismo ou o Picasso como modelo a ser atingido. As pessoas imaginam que os artistas trabalham seguindo suas individualidades ou introversões, e de fato os artistas que atuam no Japão muitas vezes trabalham no plano da introversão ou inspirados por interesses ao seu redor, e tendem a ser menos conscientizados quanto ao próximo. Mesmo que o artista seja extrovertido, há muitos trabalhos que tomam como pressuposto a identidade da comunidade, devido à característica de uma sociedade fechada que parece resultar de uma escala populacional relativamente grande para um país insular.

Naoko Mabon: Eu também sinto que os temas dos trabalhos no Japão são, em sua maioria, pessoais. Ao chegar no Brasil, tive forte impressão de que aqui, bem como na América do Sul como um todo, existem muitas obras engajadas socialmente, inclusive por ter vivido contextos históricos severos até épocas recentes, como regimes ditatoriais. Nesse ponto, quer dizer que o próprio artista é muito sensível, especialmente quanto à violência e à repressão, e ao fato de estar em liberdade. Um outro ponto que me impressionou, do lado negativo, é o quanto nós japoneses somos ignorantes sobre a história e a contemporaneidade da América do Sul, inclusive sobre as artes e os imigrantes japoneses. Os livros didáticos japoneses não dão tanto espaço à América do Sul. É uma parte da história que não temos acesso, a não ser que busquemos deliberadamente conhecê-la.

 

Hashimoto, poderia explicar um pouco sobre o Artists’ Guild com o qual você está envolvido?

Satoshi Hashimoto: O Artists’ Guild lançou, por iniciativa de um coletivo de artistas, um sistema de compartilhamento de equipamentos, para tentar criar um domínio autônomo em relação às agências governamentais ou ao mercado.  Eu também atuo no An Art User Conference, que é um coletivo que não é limitado à artistas, e também no Kiso Geijutsu Contemporary Art Think-tank. Estas iniciativas não buscam jeitos de ser baseados em divisões de papéis como artista, curador, pesquisador, público, cidadãos, mas sim buscam um novo jeito de ser que desmonta esse tipo de divisão em si. Na Europa Oriental ou na América do Sul, há muitos artistas com os quais me simpatizo. Talvez seja porque, além de eles trabalharem em situações de pobreza e dificuldades, tenho simpatia por inclinações artísticas que surgem de um contexto diferente da Europa, Estados Unidos ou Países Ocidentais. No Japão, também há elementos de dificuldade semelhantes as duas regiões, mas é uma percepção bastante distorcida. Como uma potência econômica, e pelo seu desenvolvimento com prioridade na economia, criamos uma espécie de ambiente pobre com raízes profundas. Em meio a essas dificuldades distorcidas, a sinceridade não é bem vista, e as posturas cínicas são difundidas. No entanto, ainda que em pequeno número, existem trabalhos maravilhosos que nascem exatamente por enfrentar essas dificuldades. Talvez o ponto em comum entre esses trabalhos e os trabalhos dos artistas com os quais me simpatizo na Europa Oriental ou na América do Sul possa ser o jeito de ser dos marginalizados. E isso também se relaciona com o jeito de ser dos “moradores de rua” e dos “terrenos desocupados”, que mencionei anteriormente.

 

Teria algum comentário final?

Naoko Mabon: Eu realmente tive a colaboração de diversas pessoas para a realização deste projeto. A Juliana, em particular, participou como artista, mas sobretudo assumiu diversos procedimentos, e também nos conectou a muitas pessoas. Ela nos conectou ao James Kudo, e ele nos apresentou ao Roberto Okinaka, que trabalha no Museu Afro. Isso foi muito importante. Graças a isso, o projeto se expandiu em diversas direções. Este projeto começou a partir da minha ideia, mas posso dizer que é um projeto de todos e que se realizou graças à colaboração de todos. Gostaria de expressar mais uma vez a minha gratidão aos colaboradores do Bunkyo, aos artistas, às instituições culturais de São Paulo e às pessoas que nos ajudaram como voluntários.

 


Profile

Naoko Mabon é uma curadora independente, natural de Fukuoka e residente na Escócia. Concluiu Pós-Graduação em Artes na Universidade de Arte de Tama, em 2007. Desde a época da pós-graduação, estagiou e trabalhou por cerca de 10 anos em Museus de Arte públicos e privados e galerias do Japão e do Reino Unido. Reside na Escócia desde fins de 2011. No verão de 2014 inicia o WAGON, sua própria prática curatorial. Trabalhos próximos ou recentes incluem: Ilana Halperin: The Rock Cycle(Yamaguchi) (2019-2021, Yamaguchi e Escócia); Leaves without Routes: Nemo Hamo Nai(2016, Taipei, Taiwan); Bushiro Mohri solo exhibition(2016, Gunma); colaboração para o livro “Roger Ackling: Between the Lines” (Occational Papers, 2015), entre outros.

Satoshi Hashimoto nasceu em Tóquio em 1977. É analista, anarquista, artista, árabe, abstrato, ato. Principais obras: Can’t Go, Please Come (ARCUS, Ibaraki, 2010); Omnilogue: JOURNEY TO THE WEST(Lalit Kara Academy, Nova Deli, 2012); Arbitrary Decisions and Prejudices: Divide the Audience(The National Art Center, Tóquio, 2012); False name (on 14 EVENINGS)(The National Museum of Modern Art, Tóquio, 2012); I was Leonardo da Vinci. I sell my soul. I sell heaven(AOYAMA MEGURO, Tóquio, 2013); Nation, Dice, Instruction(Daiwa Foundation, London, 2014); MOT Annual 2016 Loose Lips Save Ships (Kisei no Seiki)(Museum of Contemporary Art Tokyo, 2016); Everything and Others(LISTE, Basiléia, 2016); Fw: Outside the Country, Japan-Malaysia(Aeroporto Internacional, Aeronave, Malásia, etc. 2016); The World’s Three Major Round Things: the Sun, the Moon, the Eye(Aoyama, Meguro, 2017); Night – Time = Darkness (Hans & Fritz Contemporary, Barcelona, 2018), etc.

Takanori Suga vem trabalhando em vários projetos indoor e ao ar livre, incluindo: TAKEO MABOROSHI EXPERMENT 2017 (artista em programa de residência, Takeo, Saga, 2017); Wall Drawing for Komagome SOKO (trabalho comissionado, Komagome SOKO, Tokyo, 2015); Residency in Australia (residência espontânea na casa de um velho arborígene australiano que Suga conheceu através de uma inspiração da cultura dos nativos da Autrália durante sua estada no país, 2014); Dripping Project (Former Kyoto Official House, Kyoto, 2013); KOSHIKI ART EXHIBITION 2012 (Koshikijima Islands, Kagoshima, 2012); Tokyo Wonder Wall Exhibition (Museum of Contemporary Art Tokyo, Tokyo, 2012). Em 2016, Suga venceu o Grand Prix pelo ‘Programa ART IN THE OFFICE’ da Monex, Inc.

Juliana Kase é artista plástica e trabalha em diversas linguagens artísticas para as quais não vê fronteiras distintas. Seu interesse está no papel e entendimento que a arte assume em diversas culturas e diferentes períodos. Desde 2004 tem participado e realizado exposições em espaços institucionais e independentes no Brasil e no exterior, tais como o Centro Cultural São Paulo, Funarte RJ e SP, Passagem Literária da Consolação, Museu Nacional Reina Sofia, Casa Modernista, Espaço Cultural Casa das Onze Janelas, Museu Nacional Honestino Guimarães, entre outros. É mestranda em Cultura Japonesa na FFLCH, USP onde estuda sobre princípios estéticos japoneses pela obra poética do Editor Massao Ohno, sobre quem dirigiu o documentário inédito Editor por Editor, apoiado pelo Rumos e pela Biblioteca Mário de Andrade. Seu trabalho é representado pela Galeria Pilar, em São Paulo.

Créditos

Entrevista: Yuki Yama
Tradução: Kaori Anraku, Carlos Hideaki Fujinaga
Revisão: Grace Nakata


< Anterior       1   2   3   4   5   6     Próxima página >