{"id":14023,"date":"2020-12-18T09:00:34","date_gmt":"2020-12-18T12:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/?page_id=14023"},"modified":"2020-12-17T16:33:24","modified_gmt":"2020-12-17T19:33:24","slug":"dossie_mukashi_banashi_3_particularidades_mukashi_banashi","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_mukashi_banashi_3_particularidades_mukashi_banashi\/","title":{"rendered":"3. Particularidades dos mukashi banashi japoneses"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literario\/\">Dossi\u00ea Liter\u00e1rio<\/a> &gt; <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_mukashi_banashi\/\">Dossi\u00ea <em>Mukashi banashi<\/em><\/a> &gt; 3. Particularidades dos<em> mukashi banashi<\/em> japoneses<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive alignnone wp-image-11642 size-full\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1.png\" alt=\"\" width=\"4032\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1.png 4032w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-280x15.png 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-768x42.png 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-340x19.png 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-220x12.png 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-100x6.png 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-130x7.png 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-460x25.png 460w\" sizes=\"(max-width: 4032px) 100vw, 4032px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A despeito de minha ascend\u00eancia japonesa, desde cedo as diferen\u00e7as entre os enredos dos <em>mukashi banashi<\/em> japoneses e dos contos maravilhosos ocidentais chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o. O que, primeiramente, saltava-me aos olhos, era a extens\u00e3o da hist\u00f3ria: eu gostava muito daquelas que apresentavam uma narrativa longa e descri\u00e7\u00f5es detalhadas, e os contos japoneses, em sua maioria, s\u00e3o bastante concisos e faltam detalhes acerca dos cen\u00e1rios e das personagens.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o diz respeito ao desfecho da hist\u00f3ria, quase sempre feliz no caso dos contos do Ocidente, ao contr\u00e1rio dos japoneses. Al\u00e9m disso, percebemos nestes tra\u00e7os de viol\u00eancia \u2013 por exemplo, os maus-tratos aplicados a um animal que, para uma crian\u00e7a, normalmente consiste em algo inaceit\u00e1vel; temos, tamb\u00e9m, contos onde uma personagem inocente morre no meio da hist\u00f3ria. No caso dos contos ocidentais, a morte \u00e9 algo que ocorre normalmente ao antagonista (vil\u00e3o). \u00c9 interessante notar que, nos <em>mukashi banashi<\/em> e nas hist\u00f3rias japonesas de modo geral, dificilmente o vil\u00e3o \u00e9 morto no desfecho da narrativa; o mais comum \u00e9 que seja afugentado. Podemos a isso relacionar o pensamento japon\u00eas de que a prefer\u00eancia por afugentar, ao inv\u00e9s de matar, baseia-se na ideia de que \u00e9 melhor podermos escapar ao mal, uma vez que n\u00e3o podemos erradic\u00e1-lo. Isso porque o Mal, enquanto entidade, nunca ser\u00e1 abolido. Mesmo porque, sem a exist\u00eancia do Mal, o Bem n\u00e3o teria sua raz\u00e3o de ser. Na realidade, este n\u00e3o \u00e9 um pensamento caracter\u00edstico apenas dos japoneses, mas do povo oriental como um todo, conforme veremos mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o manique\u00edsmo das personagens. Nos contos de fadas ocidentais, normalmente elas aparecem divididas entre \u201cher\u00f3is\u201d e \u201cvil\u00f5es\u201d; nos <em>mukashi banashi<\/em> japoneses, em especial aqueles mais antigos, os limites entre \u201cBem\u201d e \u201cMal\u201d n\u00e3o ficam claramente delineados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_14043\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-14043\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-14043\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima.jpg 712w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-280x182.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-340x221.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-220x143.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-100x65.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-130x85.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/imagem-2-urashima-460x299.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-14043\" class=\"wp-caption-text\">Urashima Taro Ilustra\u00e7\u00e3o do manuscrito Urashima Taro Kanbun (1661-1673) Fonte: <a href=\"https:\/\/gallica.bnf.fr\/ark:\/12148\/btv1b53054657m.image\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gallica Biblioth\u00e8que Nationale de France<\/a><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Relaciono aqui um exemplo conhecido entre os descendentes de japoneses: a vers\u00e3o infantil do <em>mukashi banashi <u>Urashima Tar\u00f4<\/u><\/em> (\u201cUrashima Tar\u00f4\u201d), cujo protagonista, um pescador, salva uma tartaruga que estava sendo maltratada por um grupo de crian\u00e7as. Dias depois, enquanto pescava, Tar\u00f4 escuta uma voz lhe chamando: era a mesma tartaruga, que o convidava para um passeio ao reino do fundo do mar, como recompensa pela sua boa a\u00e7\u00e3o. Chegando ao local, Tar\u00f4 \u00e9 recebido pela princesa do Pal\u00e1cio do Drag\u00e3o, e l\u00e1 permanece por v\u00e1rios dias, sendo tratado com todas as honrarias. No entanto, certo dia Tar\u00f4 diz \u00e0 princesa que desejava voltar \u00e0 sua terra, pois estava preocupado com seus pais. Ela lamenta, mas concorda com o visitante, oferecendo-lhe como presente uma caixa que, no entanto, n\u00e3o poderia ser aberta. Tar\u00f4 retorna \u00e0 sua aldeia, mas nota que tudo est\u00e1 diferente, desde as casas at\u00e9 as pessoas e suas vestimentas. Decide ent\u00e3o perguntar por sua fam\u00edlia, e um anci\u00e3o lhe diz que seu av\u00f4 lhe contara a hist\u00f3ria de um pescador de nome Urashima Tar\u00f4, que havia sa\u00eddo para pescar e nunca mais voltara, e que o fato acontecera trezentos anos antes. Conscientizando-se da diferen\u00e7a de dimens\u00e3o temporal entre o reino do fundo do mar e sua realidade, ele toma conhecimento da morte de seus pais e, desolado, esquece-se da recomenda\u00e7\u00e3o da princesa do Pal\u00e1cio do Drag\u00e3o e abre a caixa: no mesmo instante, de dentro dela, uma fuma\u00e7a branca se levanta e Tar\u00f4 transforma-se em um velho.<\/p>\n<p>De modo geral, em todas as lembran\u00e7as de descendentes de japoneses que conhecem a hist\u00f3ria, ela suscita certa indigna\u00e7\u00e3o: por que um homem de \u201csentimentos nobres\u201d como Tar\u00f4, que salva um animal \u2013 sendo por isso recompensado \u2013 \u00e9, ao final, \u201ccastigado\u201d dessa forma? A princesa acaba, para muitos, assumindo o papel de \u201cvil\u00e3\u201d, na medida em que oferece um presente que n\u00e3o poderia ser aberto; h\u00e1 quem diga que ela, revoltada com o desejo de Tar\u00f4 de retornar \u00e0 sua terra, manipula sua curiosidade (proibi\u00e7\u00e3o de abrir a caixa) atrav\u00e9s do presente que lhe oferece.<\/p>\n<p>Na classifica\u00e7\u00e3o de Yanagita Kunio, <em>Urashima Tar\u00f4<\/em> aparece como um <em>densetsu<\/em> (lenda). No entanto, considerando-se suas vers\u00f5es mais antigas, h\u00e1 um detalhe significativo que foi alterado no decorrer do tempo: nas vers\u00f5es do conto que surgem at\u00e9 o s\u00e9culo XV, a princesa do Pal\u00e1cio do Drag\u00e3o e a tartaruga que Urashima salvara eram o mesmo ser, e o pescador se casa com ela. Dessa forma, \u00e9 pass\u00edvel de ser classificado tamb\u00e9m segundo a subcategoria 2.2. (narrativas sobre casamentos) \u2013 com o acr\u00e9scimo de ser uma narrativa sobre casamentos entre seres diferentes (<em>irui kon\u2019in no mukashi banashi<\/em>).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_mukashi_banashi_2_mukashibanashi_contosocidentais\/\">&lt;&lt; 2. Semelhan\u00e7as entre os <em>mukashi banashi<\/em> e os contos ocidentais<\/a> \/\/ <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_mukashi_banashi_4_final_infeliz\/\">4. Um final infeliz &gt;&gt;<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dossi\u00ea Liter\u00e1rio &gt; Dossi\u00ea Mukashi banashi &gt; 3. Particularidades dos mukashi banashi japoneses &nbsp; A despeito de minha ascend\u00eancia japonesa, desde cedo as diferen\u00e7as entre os enredos dos mukashi banashi japoneses e dos contos maravilhosos ocidentais chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o. 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