{"id":15775,"date":"2021-03-03T10:05:35","date_gmt":"2021-03-03T13:05:35","guid":{"rendered":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/?page_id=15775"},"modified":"2021-03-08T09:20:47","modified_gmt":"2021-03-08T12:20:47","slug":"dossie_literatura_feminina_1_introducao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literatura_feminina_1_introducao\/","title":{"rendered":"1. Introdu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literario\/\">Dossi\u00ea Liter\u00e1rio<\/a> &gt; <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literatura_feminina\/\">Dossi\u00ea Literatura de autoria feminina no Jap\u00e3o moderno<\/a>&gt; 1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive alignnone wp-image-11642 size-full\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1.png\" alt=\"\" width=\"4032\" height=\"223\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1.png 4032w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-280x15.png 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-768x42.png 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-340x19.png 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-220x12.png 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-100x6.png 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-130x7.png 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/pattern-v1-03-1-460x25.png 460w\" sizes=\"(max-width: 4032px) 100vw, 4032px\" \/><\/p>\n<p>Quando pensamos em literatura de autoria feminina no Jap\u00e3o \u00e9 comum pensarmos nas grandes escritoras como Murasaki Shikibu (973 ? &#8211; 1014?), que escreveu o famoso as <em>Narrativas de Genji<\/em> (<a href=\"https:\/\/www.wul.waseda.ac.jp\/kotenseki\/ga_genji\/index_en.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>Genji Monogatari<\/em><\/a>), o romance mais antigo que temos not\u00edcia, al\u00e9m de Sei Sh\u00f4nagon (966 \u2013 1017), que influenciou os monges do per\u00edodo Kamakura (1185- 1333) com seu <em>Livro do Travesseiro<\/em> (<em>Makura no S\u00f4shi<\/em>) no qual mesclava filosofia \u00e0 descri\u00e7\u00e3o do cotidiano da corte, como tamb\u00e9m Izumi Shikibu (976? -?) \u00a0que com seu di\u00e1rio, o <em>Di\u00e1rio da dama Izumi<\/em> (<em>Izumi Shikibu Nikki, <\/em>in\u00edcio do s\u00e9culo XI), mesclou v\u00e1rios g\u00eaneros narrativos como a poesia, a prosa e a fic\u00e7\u00e3o, ou ainda a narrativa de viagem da filha de Sugawara no Takasue (1008? \u20131059?), o <em>Di\u00e1rio de Sarashina<\/em> (<em>Sarashina Nikki, <\/em>1058-64?), escrito durante a vinda da jovem para a capital Heian, atual Kyoto, no qual a mo\u00e7a descreve suas expectativas sobre a mudan\u00e7a para a capital e o desejo de encontrar um rapaz como aquele descrito nas <em>Narrativas de Genji<\/em>. Essas obras mais do que revelarem o cotidiano e cerimonial da Corte, traziam tamb\u00e9m um leque da cultura, reflex\u00f5es e a descri\u00e7\u00e3o da realidade da vida das mulheres daquele per\u00edodo. Em suma, cada qual a seu modo portava uma vis\u00e3o \u00fanica de um Jap\u00e3o, que ainda hoje \u00e9 romantizado em mang\u00e1s, anim\u00eas e jogos de v\u00eddeo game, como um momento glorioso e hist\u00f3rico da nobreza nip\u00f4nica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_15828\" style=\"width: 571px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-15828\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-15828\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari.png\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari.png 1817w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-280x225.png 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-768x616.png 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-1536x1233.png 1536w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-340x273.png 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-220x177.png 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-100x80.png 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-130x104.png 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/01-murasaki-shikibu-composing-genji-monogatari-460x369.png 460w\" sizes=\"(max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><p id=\"caption-attachment-15828\" class=\"wp-caption-text\">Murasaki Shibiku compondo &#8220;Genji Monogatari&#8221; (&#8220;Narrativas de Genji&#8221;) Por Tosa Mitsuoki (1617-1691). Final do s\u00e9culo 17. Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Murasaki-Shikibu-composing-Genji-Monogatari.png\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikimedia Commons<\/a><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria desse per\u00edodo supracitado ficou conhecida como literatura ao estilo feminino (<em>jory\u00fb bungaku<\/em>), isto porque, possu\u00edam uma forma \u00fanica de escrita \u2013 eram produzidas em hiragana, e traziam como tem\u00e1tica a descri\u00e7\u00e3o do cotidiano feminino. Entretanto, o poeta Ki no Tsurayuki (872-945), no in\u00edcio do s\u00e9culo XI escreveu o <em>Di\u00e1rio de Tosa<\/em> (<em>Tosa Nikki<\/em>, 935) utilizando-se da voz narrativa feminina para narrar sua viagem do interior de Tosa, atual prov\u00edncia de K\u00f4chi, para a capital Kyoto, fugindo da descri\u00e7\u00e3o formal de um relat\u00f3rio, descrevendo os sentimentos dos viajantes, os cerimoniais do dia a dia e a tristeza do governador, que embora feliz por estar retornando \u00e0 capital, se entristecia pelo falecimento da filha que n\u00e3o retornava junto dele.<\/p>\n<p>Para Miner (1968), embora no per\u00edodo Heian, muitos di\u00e1rios tenham sido escritos dando origem ao g\u00eanero diaristico (<em>Nikki Bungaku<\/em>) \u00e9 necess\u00e1rio diferenciarmos a produ\u00e7\u00e3o diaristica japonesa da produ\u00e7\u00e3o europeia como o \u201cjournal\u201d e o \u201cdiary\u201d. Visto que enquanto o \u201cdiary\u201d \u00e9 um relato criterioso do dia a dia do autor, o \u201cjournal\u201d trata de quest\u00f5es p\u00fablicas na narrativa, com cr\u00edticas e reflex\u00f5es sobre o governo, o \u201cnikki\u201d japon\u00eas mescla quest\u00f5es privadas, do cotidiano da nobreza, \u00e0 reflex\u00e3o de problemas universais. Al\u00e9m disso,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 200px\">A &#8220;margem estreita entre a verdade e a fic\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 presumivelmente muito mais estreita, na literatura japonesa.<br \/>\nO que, podemos perguntar, distingue ent\u00e3o um di\u00e1rio de arte japonesa de um di\u00e1rio natural? A quest\u00e3o s\u00f3 recentemente foi levantada por estudiosos japoneses, e o pr\u00f3prio conceito de literatura de di\u00e1rios ou di\u00e1rios liter\u00e1rios (nikki bungaku) tem apenas cerca de cinquenta anos de idade. T\u00e3o forte tinha sido o pressuposto de que os &#8220;di\u00e1rios&#8221; eram registos reais dos acontecimentos. No entanto, \u00e9 um fato evidente que a maior parte dos di\u00e1rios cl\u00e1ssicos importantes, evitam entradas di\u00e1rias e relembram, obviamente, o que aconteceu com grande liberdade. A mais recente conclus\u00e3o japonesa sobre a diferen\u00e7a \u00e9, portanto, que embora o di\u00e1rio natural seja um registro de fatos, o di\u00e1rio de arte tem, al\u00e9m disso, um &#8220;elemento liter\u00e1rio&#8221; &#8211; mais sentimento, t\u00e9cnica, estilo. (MINER,1968, p.41).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O g\u00eanero diaristico nip\u00f4nico, majoritariamente produzido por mulheres, teria como objetivo al\u00e9m de revelar o real cotidiano da corte e da vida das mulheres que serviam a fam\u00edlia imperial tamb\u00e9m gerar por meio da escrita um espa\u00e7o de desabafo, de express\u00e3o da solid\u00e3o das narradoras, a depend\u00eancia de seus maridos, e a liberdade para falar o que sentiam. Suas reflex\u00f5es atingiam n\u00e3o apenas outras mulheres de sua \u00e9poca, mas chegaram com vigor \u00e0 contemporaneidade, pois sua forma de narrar e temas ecoam nas obras contempor\u00e2neas.<\/p>\n<p>A partir do in\u00edcio do per\u00edodo moderno japon\u00eas, per\u00edodo Meiji (1868 \u2013 1912), a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria feminina do per\u00edodo cl\u00e1ssico passa por um processo de canoniza\u00e7\u00e3o da literatura japonesa, a fim de comprovar a for\u00e7a e erudi\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o-estado em forma\u00e7\u00e3o. Nas palavras de Suzuki (2000),<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 200px\">A canoniza\u00e7\u00e3o dos <em>kana nikki<\/em> das mulheres de Heian ocorreu no contexto mais amplo do processo de constru\u00e7\u00e3o do moderno estado-na\u00e7\u00e3o, do qual a institui\u00e7\u00e3o moderna do <em>kokubungaku<\/em> (literatura nacional e seu estudo) tornou-se parte integrante. (&#8230;) A literatura Heian (de) <em>kana<\/em>, h\u00e1 muito associada \u00e0 feminilidade, foi designada a base da &#8220;literatura nacional&#8221; como resultado da no\u00e7\u00e3o fonoc\u00eantrica de &#8220;l\u00edngua nacional&#8221; (<em>kokugo<\/em>) que surgiu em estreita rela\u00e7\u00e3o com o movimento <em>genbun-itchi<\/em> (uni\u00e3o das l\u00ednguas faladas e escritas) e que cada vez mais enfatizava a express\u00e3o direta e n\u00e3o mediada. (p.72)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Isso significaria que a autoria ou o conte\u00fado social dessas obras ficaria em segundo plano, destacando apenas a escrita dessas produ\u00e7\u00f5es, visto que o objetivo do governo era construir e solidificar uma literatura nacional. Obras reconhecidas como a antologia <em>Kokinsh\u00fb <\/em>(Colet\u00e2nea de poemas de outrora e de hoje, 905) e o <em>Man\u2019y\u00f4sh\u00fb<\/em> (Mir\u00edade de Folhas, 759) que foram escritas e compiladas em <em>kanbun<\/em>, chin\u00eas cl\u00e1ssico, foram eliminadas dessa organiza\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, pois n\u00e3o representariam um esp\u00edrito nacional que o Jap\u00e3o buscava enfatizar. Ainda segundo Suzuki (2000), os di\u00e1rios femininos escritos em kana (hiragana) valorizavam dois eixos, como \u201cexpress\u00e3o direta da emo\u00e7\u00e3o e como um passo cr\u00edtico em dire\u00e7\u00e3o as Narrativas de Genji, o romance realista\u201d (p. 72).<\/p>\n<p>Seguindo esse pressuposto o governo japon\u00eas enfatizaria, principalmente para governos ocidentais, um hist\u00f3rico liter\u00e1rio \u201coriginal\u201d e a express\u00e3o de \u201ceu genu\u00edno\u201d constru\u00eddo sem influ\u00eancias estrangeiras. \u00c9 importante deixar claro que, essa escolha visivelmente pol\u00edtica da constru\u00e7\u00e3o de um c\u00e2none liter\u00e1rio baseado em textos filos\u00f3ficos, em detrimento de textos ficcionais como as \u201cNarrativas de Genji\u201d, e textos escritos em <em>kanbun<\/em>, n\u00e3o tencionava a valoriza\u00e7\u00e3o da autoria feminina, mas sim buscava enfatizar \u201ca express\u00e3o &#8220;sincera&#8221; de si mesmo\u201d, como um prot\u00f3tipo genu\u00edno da literatura moderna, dita como \u201cliteratura pura\u201d, que seria representada pelo \u201cRomance do Eu\u201d (<em>Shi Sh\u00f4setsu<\/em>).<\/p>\n<p>A maneira como se deu a constru\u00e7\u00e3o da um sistema liter\u00e1rio aut\u00f3ctone baseava-se em defini\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias europeias, em que a literatura tipicamente nip\u00f4nica seria caracterizada por uma \u201cmentalidade japonesa \u201celegante e graciosa\u201d (<em>y\u00fbbi<\/em>) em contraste com o \u201cheroico e grandioso\u201d (<em>g\u00f4itsu, y\u00fbs\u00f4<\/em>) que s\u00e3o caracter\u00edsticas da literatura chinesa ou o \u201cpreciso, detalhado, e exaustivo\u201d (<em>seichi<\/em>) natural da literatura ocidental\u201d (SUZUKI, 2000, p. 75). Consequentemente, o realismo contido nas <em>Narrativas de Genji,<\/em> por exemplo, seria substitu\u00eddo e difundido como a literatura nacional japonesa real. A graciosidade e a sensibilidade, como podemos observar na atualidade, ainda \u00e9 algo visto como tipicamente nip\u00f4nico e feminino, contrapondo-se a literatura feminina moderna, e at\u00e9 mesmo ao \u201cRomance do Eu\u201d.<\/p>\n<p>Ao refor\u00e7ar uma literatura \u201csens\u00edvel e graciosa\u201d, associando-a a um feminino fr\u00e1gil e on\u00edrico, o governo priorizava uma identidade nacional onde o militarismo de anos posteriores, confrontos civis e pobreza tamb\u00e9m eram apagados da \u201chist\u00f3ria\u201d social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 200px\">Apesar da forte ambival\u00eancia que esses estudiosos de Meiji mostraram em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria caracteriza\u00e7\u00e3o da literatura nacional como &#8220;elegante e gentil, excelente na gra\u00e7a, mas sem magnific\u00eancia ou grandeza heroica&#8221;, e apesar da representa\u00e7\u00e3o subsequente (durante as Guerras Sino-Japonesa e Russo-Japonesa) de car\u00e1ter nacional como masculino, marcado pelo &#8220;esp\u00edrito militar&#8221; (<em>sh\u00f4bu ninky\u00f4<\/em>) e &#8220;lealdade e coragem&#8221; (<em>ch\u00fbko giy\u00fb<\/em>), essa caracteriza\u00e7\u00e3o feminina da Literatura Japonesa continuaria no p\u00f3s-guerra, principalmente por uma necessidade de identifica\u00e7\u00e3o a singularidade e continuidade da l\u00edngua nacional e como resultado da mudan\u00e7a na no\u00e7\u00e3o de <em>bungaku<\/em> do sentido mais amplo das humanidades para o sentido mais restrito da literatura imaginativa que enfatizou as emo\u00e7\u00f5es humanas. (SUZUKI, 2000, p. 79).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seguindo esse pressuposto a imagem do indiv\u00edduo nip\u00f4nico socialmente ligado as suas ra\u00edzes heroicas e nacionais, por\u00e9m sens\u00edvel e voltado para o autoconhecimento, como um guerreiro samurai, passa a ser difundida e reiterada no ocidente.<\/p>\n<p>O g\u00eanero \u201cRomance do Eu\u201d (<em>Shi Sh\u00f4setsu<\/em>) que se desenvolveu a partir do per\u00edodo moderno inicialmente referia-se \u201ca certos esbo\u00e7os autobiogr\u00e1ficos contempor\u00e2neos cujos autores pareciam escrever diretamente sobre suas vidas pessoais\u201d (SUZUKI, 2000, p.89). Mas esse conceito passou a se tornar nebuloso na medida em que os estudiosos buscavam referenciar essas obras tendo como base a literatura cl\u00e1ssica japonesa, em espec\u00edfico os di\u00e1rios femininos, que tinham como objetivos diferentes e expressavam sentimentos diversos daqueles da sociedade moderna japonesa. Por causa desta associa\u00e7\u00e3o do \u201cRomance do eu\u201d com a literatura de autoria feminina cl\u00e1ssica (<em>jory\u00fb nikki bungaku<\/em>), particularmente ap\u00f3s a segunda guerra mundial, a literatura de autoria feminina passou a ser vista como basti\u00e3o do estilo cl\u00e1ssico, sendo assim para que a obra fosse considerada erudita precisaria manter a mesma estrutura lingu\u00edstica tal qual as damas da corte do per\u00edodo Heian.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_15829\" style=\"width: 670px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-15829\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-15829\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"660\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-scaled.jpg 2560w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-280x191.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-768x524.jpg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-1536x1047.jpg 1536w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-2048x1396.jpg 2048w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-340x232.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-220x150.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-100x68.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-130x89.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/02-seishonagon-moronobu-460x314.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 660px) 100vw, 660px\" \/><p id=\"caption-attachment-15829\" class=\"wp-caption-text\">Sei Shonagon e suas assistentes, 1683.<br \/>Ukiyo-e de Hishikawa Moronobu (1618-1694).<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:The_Poetess_Sh%C5%8Dnagon_with_Her_Attendants_by_Hishikawa_Moronobu_by_Hishikawa_Moronobu,_Honolulu_Museum_of_Art.JPG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikimedia Commons<\/a><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar, segundo afirma Tamura (2016), que embora tenham usado os modelos cl\u00e1ssicos como embasamento para o \u201cRomance do Eu\u201d, as damas da corte de Heian j\u00e1 produziam obras ficcionais baseadas em experi\u00eancias pessoais, em que se sobrepunham em camadas suas biografias de maneira ficcionalizada. Dessa forma o p\u00fablico leitor, reconhecendo a narrativa real da autora, tinha interesse na forma pela qual a narrativa seria constru\u00edda, o que ressaltaria a estil\u00edstica e t\u00e9cnica do autor. No per\u00edodo moderno, apesar de muitas mulheres utilizarem-se desse modelo narrativo e lingu\u00edstico na constru\u00e7\u00e3o de seus romances, apenas nomes masculinos foram associados ao \u201cRomance do Eu\u201d.<\/p>\n<p>Para embasar essa afirma\u00e7\u00e3o de que a ess\u00eancia do \u201cRomance do Eu\u201d, estaria apenas na literatura cl\u00e1ssica de Heian, muitos cr\u00edticos liter\u00e1rios debru\u00e7aram-se sobre a produ\u00e7\u00e3o feminina, enfatizando o nacionalismo na escrita e estilo das damas, que na realidade representariam n\u00e3o a nobreza, mas sim uma camada marginalizada da corte, que o estudioso Saig\u00f4 Nobutsuna (1916), influenciado pela cr\u00edtica marxista as chamaria de filhas dos <em>zury\u00f4<\/em> (governadores de prov\u00edncias), o que revelaria a resist\u00eancia dessas mulheres por meio da escrita. Para Saig\u00f4 (1916) embora a ess\u00eancia do g\u00eanero <em>Romance do Eu<\/em> contenha nos di\u00e1rios femininos, como no <em>Di\u00e1rio da Efemeridade<\/em>, escrito pela M\u00e3e de Michitsuna, por ser uma obra auto centrada na biografia da narradora, a escrita feminina na modernidade se basearia n\u00e3o no modelo cl\u00e1ssico de escrita, mas na forma de resistir e criticar a sociedade japonesa em meio a uma sociedade liter\u00e1ria que n\u00e3o as via como iguais. Outra quest\u00e3o levantada pelo estudioso \u00e9 que embora esses di\u00e1rios tivessem sido escritos em <em>kana<\/em>, criados pelas damas da Corte de Heian, o conte\u00fado dessas obras havia sofrido clara influ\u00eancia da poesia l\u00edrica chinesa, visto que todos os poetas do s\u00e9culo X e XII precisavam ser versados na escrita e poesia advinda da China. Ademais,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 200px\">As escritoras de Heian tornaram-se as figuras supremas da resist\u00eancia, bem como uma tradi\u00e7\u00e3o popular nacional; Elas passaram a simbolizar a intelectualidade japonesa (masculina) do p\u00f3s-guerra politicamente e socialmente marginalizada, que aspirava a ressuscitar por meio de seus la\u00e7os com a tradi\u00e7\u00e3o popular nacional; (SAIG\u00d4 apud SUZUKI, 2000, p. 91)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com essa perspectiva durante a transi\u00e7\u00e3o do per\u00edodo militar para o per\u00edodo moderno, a fim de se auto afirmarem como profissionais em sua \u00e1rea muitas escritoras seguiram um modelo pr\u00e9-estabelecido de escrita para que sua produ\u00e7\u00e3o fosse lida, al\u00e9m do p\u00fablico leitor feminino. Muitas contavam com o apoio de escritores tutores, como aconteceu com Higuchi Ichiy\u00f4 (1872-1896), que embora tenha come\u00e7ado a seguir esse modelo, ao buscar produzir algo que fosse aceito pelo grande p\u00fablico das revistas liter\u00e1rias precisou mudar seu estilo de escrita. Sobre o caso espec\u00edfico da autora nos debru\u00e7aremos a seguir.<\/p>\n<p>Por outro lado tornou-se dif\u00edcil para estudiosos homens dissociarem a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria moderna da ess\u00eancia de explora\u00e7\u00e3o do eu dos di\u00e1rios cl\u00e1ssicos, o que gerava um paradoxo entre a forma\u00e7\u00e3o de um sistema liter\u00e1rio aut\u00f3ctone baseado em influ\u00eancias cl\u00e1ssicas (que por sua vez tinham sua base na poesia e escritos chineses) graciosa e ligada ao desapego de bens materiais, versus uma produ\u00e7\u00e3o que representasse a modernidade e o avan\u00e7o industrial do Jap\u00e3o moderno, que buscava esconder um passado luxuoso voltado apenas para as fam\u00edlias nobres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 200px\">(&#8230;) eles reconfiguraram e racionalizaram as associa\u00e7\u00f5es femininas da literatura nacional japonesa, enfatizando a import\u00e2ncia da tradi\u00e7\u00e3o l\u00edrica e auto-explorat\u00f3ria como a quintess\u00eancia da literatura e alegando que essa tradi\u00e7\u00e3o era cr\u00edtica para o desenvolvimento do eu moderno em termos tanto do indiv\u00edduo quanto da na\u00e7\u00e3o em face de uma sociedade de massa industrial em r\u00e1pida expans\u00e3o (SUZUKI, 2000, p. 95).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste caso enquanto os estudiosos homens buscavam reafirmar uma literatura com identidade nacional, excluindo produ\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da constru\u00e7\u00e3o desse sistema liter\u00e1rio e suas influ\u00eancias chinesas, as discuss\u00f5es sobre pol\u00edtica e racionalidade advindas do exterior, embora fossem aplicadas na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria eram deixadas em segundo plano, visto que a busca maior era implanta\u00e7\u00e3o de um ideal nacional puro. O que significaria dizer que n\u00e3o havia influ\u00eancias tanto chinesas quanto europeias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_natsume_soseki\/\" rel=\"noopener noreferrer\">&lt;&lt; <\/a><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literatura_feminina\/\">Dossi\u00ea Literatura de autoria feminina no Jap\u00e3o moderno<\/a> \/\/ <\/strong><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/dossie_literatura_feminina_2_revistas_literarias_publicacoes\/\">2. Revistas Liter\u00e1rias e Publica\u00e7\u00f5es &gt;&gt;\u00a0<\/a><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dossi\u00ea Liter\u00e1rio &gt; Dossi\u00ea Literatura de autoria feminina no Jap\u00e3o moderno&gt; 1. Introdu\u00e7\u00e3o Quando pensamos em literatura de autoria feminina no Jap\u00e3o \u00e9 comum pensarmos nas grandes escritoras como Murasaki Shikibu (973 ? &#8211; 1014?), que escreveu o famoso as Narrativas de Genji (Genji Monogatari), o romance mais antigo que temos not\u00edcia, al\u00e9m de Sei [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"class_list":["post-15775","page","type-page","status-publish","hentry"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/15775","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15775"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/15775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16578,"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/15775\/revisions\/16578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}