{"id":16039,"date":"2021-03-25T09:00:10","date_gmt":"2021-03-25T12:00:10","guid":{"rendered":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/?page_id=16039"},"modified":"2021-03-24T16:43:30","modified_gmt":"2021-03-24T19:43:30","slug":"traducaoemfoco_thiago_nojiri_agora_sim","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_agora_sim\/","title":{"rendered":"Thiago Nojiri &#8211; Agora, sim, \u201cbotando a m\u00e3o na massa\u201d pra valer"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right\"><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco\/\">Tradu\u00e7\u00e3o em Foco<\/a> &gt; Agora, sim, \u201cbotando a m\u00e3o na massa\u201d pra valer<\/h5>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive img-fluid alignnone wp-image-16059 size-full\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04.jpg\" alt=\"\" width=\"2501\" height=\"448\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04.jpg 2501w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-280x50.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-768x138.jpg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-1536x275.jpg 1536w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-2048x367.jpg 2048w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-340x61.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-220x39.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-100x18.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-130x23.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/banner-site-04-460x82.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 2501px) 100vw, 2501px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, esse foi o resumo da primeira metade da minha jornada. Foram quatro (quase cinco) anos na Editora JBC, aprendendo e crescendo, deixando de ser apenas um \u201ccara que sabe japon\u00eas\u201d para ser um \u201ctalvez profissional do mercado editorial\u201d.<\/p>\n<p>Durante o tempo que fiquei na JBC, eu cheguei a traduzir bastante coisa n\u00e3o-relacionada a mang\u00e1s por fora, mas mang\u00e1 mesmo, s\u00f3 posso dizer que traduzi o <strong>Blade \u2013 A L\u00e2mina do Imortal<\/strong>. E, mesmo ele, na verdade foi mais uma reconstru\u00e7\u00e3o do que a Drik tinha feito para a Conrad Editora na primeira vez que foi lan\u00e7ado no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_16073\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16073\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16073\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"357\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade.jpg 806w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-280x222.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-768x610.jpg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-340x270.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-220x175.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-100x79.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-130x103.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/3-blade-460x365.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-16073\" class=\"wp-caption-text\">Conrad Editora \/ Editora JBC. Foto: Thiago Nojiri<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Apesar disso, eu tenho um carinho mais do que especial por <em>Blade<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 porque eu sou f\u00e3 de carteirinha do autor Hiroaki Samura, mas principalmente porque ele \u00e9 um mang\u00e1 com muitas camadas de complexidade, por ela ser uma obra hist\u00f3rica que se passa no final do Per\u00edodo Edo, por\u00e9m, com v\u00e1rios momentos de liberdades art\u00edsticas que ignoram completamente os fatos ver\u00eddicos. Para quem ainda n\u00e3o leu e se interessa por uma excelente hist\u00f3ria de samurai, <em>Blade<\/em> n\u00e3o vai decepcionar de jeito nenhum, eu garanto.<\/p>\n<p>E, aproveitando o gancho, permita-me falar ent\u00e3o da parte da minha jornada em que a \u00fanica coisa que fiz foi traduzir. Traduzir sem parar, o quanto o tempo permitisse, tradu\u00e7\u00e3o atr\u00e1s de tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em agosto de 2016, eu tive a oportunidade de conversar com o Junior Fonseca, o diretor e fundador da <a href=\"https:\/\/www.lojanewpop.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NewPOP Editora<\/a>, e foi quando decidi que poderia evoluir mais ainda saindo da JBC. Afinal, ainda faltava fazer aquilo que me define hoje: viver de tradu\u00e7\u00e3o; e foi justamente isso que eu iria fazer na NewPOP.<\/p>\n<p>Em um primeiro momento, tinha sido acordado que eu traduziria dois mang\u00e1s ou uma <em>light novel<\/em> por m\u00eas, variando de acordo com o que estivesse sendo lan\u00e7ado. Particularmente, eu me identifico muito com o cat\u00e1logo da NewPOP, por trazer obras mais recentes e modernas, em vez de ficar apenas nos cl\u00e1ssicos seguros como em outras editoras. E incluo as <em>light novels<\/em> nisso, j\u00e1 que a NewPOP \u00e9 a \u00fanica editora no Brasil que lan\u00e7a de forma consistente este formato de livro.<\/p>\n<p>A partir disso, comecei a traduzir tudo que o Junior precisava, e o que ele mais precisava naquela \u00e9poca era de tradu\u00e7\u00e3o de <em>light novels<\/em>. N\u00e3o vou me estender aqui explicando exatamente o que s\u00e3o as <em>light novels <\/em>(<a href=\"https:\/\/medium.com\/@nojiri.silva\/guia-definitivo-de-light-novel-at%C3%A9-segunda-ordem-ou-por-que-tem-tantos-anim%C3%AAs-gen%C3%A9ricos-ruins-a62e3b7209f3\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fiz um texto no Medium explicando em detalhes, podem conferir por l\u00e1<\/a>), mas s\u00e3o basicamente livros de romance como outros quaisquer, por\u00e9m com algumas peculiaridades que s\u00f3 se aplicam ao mercado japon\u00eas. Para n\u00f3s, aqui no Brasil, s\u00e3o apenas livros japoneses.<\/p>\n<p>E, minha nossa senhora\u2026 Como a tradu\u00e7\u00e3o de livro \u00e9 exaustiva e intensa. As <em>light novels<\/em>, em m\u00e9dia, possuem entre 300 a 400 p\u00e1ginas por volume, o que j\u00e1 \u00e9 bastante coisa para se fazer em um m\u00eas, mas soma-se a isso uma das peculiaridades que citei acima, que \u00e9 a liberdade na forma como o autor a escreve.<\/p>\n<p>Vou tentar explicar usando como exemplo as obras que traduzi: <strong>Re:Zero \u2013 Come\u00e7ando uma Vida em Outro Mundo<\/strong>, <strong>No Game No Life<\/strong> e <strong>Shakugan no Shana<\/strong>. Em Re:Zero, o autor era apenas um amador que nunca tinha feito outros livros na vida e, logo no seu primeiro, encontrou um sucesso estrondoso. Veja, n\u00e3o estou dizendo que a narrativa dele \u00e9 ruim, pelo contr\u00e1rio, Re:Zero \u00e9 muito bem amarrado do ponto de vista de roteiro, por\u00e9m o seu universo \u00e9 extremamente vasto. \u00c9 a obra da vida do autor, ent\u00e3o ele coloca tudo que quer colocar, algo que s\u00f3 \u00e9 vi\u00e1vel em um formato de 400 p\u00e1ginas por mais de 20 volumes (e ainda inacabado). Ou seja, existem detalhes e mais detalhes que n\u00e3o acabam mais, e apenas um pequeno deslize na tradu\u00e7\u00e3o pode resultar em uma incoer\u00eancia no futuro, ent\u00e3o eu precisava estar constantemente atento \u00e0 forma que cada personagem se comportava, aos termos, \u00e0s informa\u00e7\u00f5es aparentemente inofensivas, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_16074\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16074\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16074\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel.png 1024w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-280x162.png 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-768x444.png 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-340x197.png 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-220x127.png 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-100x58.png 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-130x75.png 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/4-light-novel-460x266.png 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-16074\" class=\"wp-caption-text\">NewPop Editora \/ Foto: Thiago Nojiri<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 em No Game No Life, que \u00e9 provavelmente a tradu\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil que j\u00e1 fiz em toda a minha vida, o autor Yuu Kamiya (que \u00e9 brasileiro) usa e abusa de neologismos e regionalismos durante a narrativa. Para piorar, a figura do narrador \u00e9 mista, ela \u00e9 tanto o protagonista Sora, como um narrador onisciente na aus\u00eancia deste. Ent\u00e3o, do ponto de vista t\u00e9cnico, No Game No Life tem um n\u00edvel bastante elevado de complexidade, pois: 1) \u00e9 necess\u00e1rio saber interpretar os neologismos; 2) \u00e9 necess\u00e1rio conhecer os regionalismos; 3) \u00e9 necess\u00e1rio saber julgar quem est\u00e1 narrando; e 4) \u00e9 necess\u00e1rio que isso tudo seja transmitido com uma linguagem relativamente informal, atual e \u201cjovem\u201d, pois a obra \u00e9 sobre games. E fazer 400 p\u00e1ginas disso foi realmente um grande desafio.<\/p>\n<p>Por fim, em Shakugan no Shana, que \u00e9 um livro um pouco mais antigo que os anteriores, ainda que n\u00e3o tenha tanta complexidade em termos de forma da narrativa, se aproximando de um romance \u201ctradicional\u201d, \u00e9 uma obra de a\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica (\u00e9 assim que pr\u00f3prio autor frequentemente a descreve nos posf\u00e1cios) e a todo momento alguma cena de a\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo detalhadamente descrita, algo que \u00e9 um recurso visualmente natural quando escrito em japon\u00eas, por\u00e9m muito dif\u00edcil de transpor em portugu\u00eas por conta da ordem em que os acontecimentos devem ser narrados. Por exemplo, em japon\u00eas, podemos escrever desta forma: \u201ccontra o inimigo que veio pelo flanco esquerdo, a garota pegou a espada com a m\u00e3o direita e a brandiu no sentido contr\u00e1rio\u201d (\u5de6\u65b9\u5411\u304b\u3089\u6765\u305f\u6575\u306b\u5bfe\u3057\u3001\u5c11\u5973\u306f\u53f3\u624b\u3067\u53d6\u3063\u305f\u5200\u3092\u9006\u65b9\u5411\u306b\u632f\u3063\u305f\u3002). Ainda que a frase fa\u00e7a sentido e esteja na ordem cronol\u00f3gica dos acontecimentos, em portugu\u00eas, \u00e9 mais natural descrever da seguinte maneira: \u201cA garota brandiu a espada que pegou com a sua m\u00e3o direita no sentido contr\u00e1rio ao inimigo que vinha pelo flanco esquerdo\u201d. E esse tipo de \u201creorganiza\u00e7\u00e3o\u201d das frases \u00e9 bastante constante, e muitas vezes eu me via em situa\u00e7\u00f5es onde a descri\u00e7\u00e3o da cena era exageradamente longa e se eu devia ou n\u00e3o manter a tradu\u00e7\u00e3o na mesma ordem do original.<\/p>\n<p>Bem, essas foram algumas das dificuldades pr\u00f3prias de uma tradu\u00e7\u00e3o de <em>light novels<\/em>, em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de mang\u00e1s. Certamente muitas coisas s\u00e3o intercambi\u00e1veis e n\u00e3o h\u00e1 nada que seja exclusivo de uma m\u00eddia, apenas elementos que s\u00e3o mais ou menos presentes.<\/p>\n<p>E, j\u00e1 que comentei sobre mang\u00e1s, vamos falar um pouco deles. At\u00e9 o momento, tive o prazer de traduzir obras divertid\u00edssimas e bastante diversas, desde cl\u00e1ssicos como <strong>Devilman<\/strong> ou <strong>Kamen Rider<\/strong>, passando por BLs como <strong>Given<\/strong>, autobiografias como <strong>Minha Experi\u00eancia L\u00e9sbica com a Solid\u00e3o<\/strong> e at\u00e9 <em>hentais<\/em> como <strong>As Mulheres e Seus Segredos<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_16075\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16075\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16075\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman.png 1024w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-280x176.png 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-768x484.png 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-340x214.png 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-220x139.png 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-100x63.png 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-130x82.png 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/5-devilman-460x290.png 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-16075\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Thiago Nojiri<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, para este momento, quero falar de duas obras em espec\u00edfico: <strong>Devilman<\/strong> e <strong>Given<\/strong>, no intuito de ilustrar um ponto que eu acho muito interessante na tradu\u00e7\u00e3o e que muitas vezes parece passar despercebido.<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, obras antigas como Devilman (ou os Tezuka, Kamen Rider, Yamato, etc.) parecem ser mais f\u00e1ceis de serem traduzidas, justamente porque os quadrinhos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ca\u00f3ticos (assemelhando-se a um formato de tirinhas) e os textos s\u00e3o mais simples. Enquanto que obras recentes e modernas como Minha Experi\u00eancia L\u00e9sbica com a Solid\u00e3o (ou Given e Houseki no Kuni) s\u00e3o mais \u201cdif\u00edceis\u201d porque os autores passaram a abusar mais de recursos visuais e de textos longos com profundidade.<\/p>\n<p>At\u00e9 certo ponto, essa premissa \u00e9 verdadeira. Se visto do ponto de vista objetivo, realmente, os mang\u00e1s de cinquenta anos atr\u00e1s s\u00e3o mais simples. Por\u00e9m, na minha experi\u00eancia (e falo aqui exclusivamente de mim), eu sempre tive mais dificuldade em traduzir cl\u00e1ssicos do que os mang\u00e1s recentes, e toda vez me perguntava o motivo por tr\u00e1s dessa sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois acho que cheguei a uma resposta e compartilho aqui com todos: a evolu\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o na t\u00e9cnica de <em>fazimento<\/em> de mang\u00e1s, n\u00e3o s\u00f3 por parte dos autores, mas dos editores tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Muitas vezes, quando pegamos obras antigas, a \u00fanica coisa que prestamos aten\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o \u00e0s obras recentes \u00e9 o tra\u00e7o do desenho. Por bem ou por mal, \u00e9 ineg\u00e1vel que mang\u00e1s antigos t\u00eam um desenho \u201cdatado\u201d. Mas este n\u00e3o \u00e9 o nosso interesse aqui, que mexemos com textos. Da mesma forma que os tra\u00e7os dos desenhos mudaram, a estrutura da narrativa, a escolha das palavras e a disposi\u00e7\u00e3o dos quadrinhos tamb\u00e9m mudaram com o passar do tempo.<\/p>\n<p>Veja, n\u00e3o estou aqui para fazer um julgamento da qualidade de uma obra ou outra, os cl\u00e1ssicos s\u00e3o cl\u00e1ssicos por um motivo e longe de mim dizer que mang\u00e1s mais recentes s\u00e3o melhores s\u00f3 por serem recentes.<\/p>\n<p>Muito bem, vamos pegar o Devilman. Para quem ainda n\u00e3o leu, recomendo fortemente a leitura, ela acontece com uma fluidez que quase n\u00e3o se v\u00ea mesmo nos mang\u00e1s atuais. E esse \u00e9 o meu primeiro e maior ponto sobre a dificuldade de traduzir obras deste tipo: muitas vezes, elas foram pioneiras em alguns recursos que est\u00e3o utilizando. O Go Nagai, em especial, foi literalmente o primeiro a fazer certas coisas em seus mang\u00e1s, ele foi precursor em utilizar alguns recursos que hoje s\u00e3o t\u00e3o comuns. Por isso mesmo, a forma como o Go Nagai estrutura a pr\u00f3pria narrativa e constr\u00f3i os bal\u00f5es \u00e9 quase \u201cexperimental\u201d, mas que funciona como uma luva dentro de suas obras. O problema, \u00e9 que quando n\u00f3s pegamos para traduzir, por mais que as falas dos personagens sejam simples, a disposi\u00e7\u00e3o e a ordem de como eles acontecem n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o natural como em narrativas recentes. E isso se agrava mais ainda em portugu\u00eas, pelo motivo da ordem das frases que comentei no par\u00e1grafo sobre Shakugan no Shana. E, como se n\u00e3o bastasse, diferentemente de livros, em um mang\u00e1, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel alterar a ordem dos bal\u00f5es, pois eles est\u00e3o diretamente atrelados a um desenho.<\/p>\n<p>A segunda dificuldade s\u00e3o os \u201cv\u00edcios\u201d narrativos pr\u00f3prios da \u00e9poca, e aqui volto \u00e0 quest\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o no <em>fazimento<\/em> dos mang\u00e1s por parte dos autores e editores. Como disse h\u00e1 pouco, <em>mangak\u00e1s<\/em> como o Go Nagai foram precursores da ind\u00fastria, ningu\u00e9m tinha feito nada igual antes. E, justamente por isso, mang\u00e1s dessa \u00e9poca acabam apresentando alguns \u201cdefeitos\u201d de narrativa que, hoje em dia, j\u00e1 foram superados. Dois exemplos mais claros que trago aqui s\u00e3o: 1) bal\u00f5es e personagens explicativos, ou seja, em vez de ilustrar a cena com o desenho, o autor coloca um personagem que, de forma pouco natural, narra para o leitor o que est\u00e1 acontecendo; e 2) a repeti\u00e7\u00e3o exaustiva das mesmas frases ou conceitos, tamb\u00e9m de forma pouco natural, onde acontecem di\u00e1logos como: \u201cO meu nome \u00e9 Thiago, o tradutor\u201d, \u201cQu\u00ea? Ent\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 Thiago, o tradutor!\u201d. Esse tipo de constru\u00e7\u00e3o de narrativa, por mais que seja um reflexo da \u00e9poca e eu tente respeitar ao m\u00e1ximo a forma como est\u00e1 no original, na hora de traduzir, requer uma criatividade extra, pois o portugu\u00eas \u00e9 muito mais impiedoso que o japon\u00eas. Se em japon\u00eas j\u00e1 fica pouco natural, em portugu\u00eas, ent\u00e3o, a coisa se agrava exponencialmente se traduzido ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p>Existem muitos outros v\u00edcios que quem j\u00e1 leu mang\u00e1s certamente vai se lembrar, e se n\u00f3s leitores percebemos esses v\u00edcios, com certeza os autores e editores que cresceram lendo cl\u00e1ssicos tamb\u00e9m perceberam. Por isso, quando eu pego um mang\u00e1 como Given, que \u00e9 uma obra simplesmente excepcional do ponto de vista de cria\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o, sinto que a tradu\u00e7\u00e3o flui mais naturalmente, pois os v\u00edcios j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o mais t\u00e3o presentes, gra\u00e7as aos longos anos de evolu\u00e7\u00e3o da estrutura do mang\u00e1 e a busca incessante para se fazer obras cada vez melhores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_deconsumidor\/\">&lt;&lt; 3. De consumidor \u00e0 &#8220;bot\u00e3o a m\u00e3o na massa&#8221;<\/a>\u00a0 \/\/\u00a0 <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_posfacio\/\">5. Posf\u00e1cio &gt;&gt;<\/a><\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri\/\">1\u00a0<\/a>\u30fb\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_paixao_frustracao\/\"> 2<\/a>\u00a0<\/strong>\u30fb <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_deconsumidor\/\">3<\/a> \u30fb <strong>[ 4 ]<\/strong>\u30fb <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_thiago_nojiri_posfacio\/\">5<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #000000\">*Os usos de imagens e conte\u00fados desta p\u00e1gina s\u00e3o exclusivamente para fins educacionais e de divulga\u00e7\u00e3o de cultura japonesa, sem fins comerciais.<\/span><\/h6>\n<script type=\"text\/javascript\"> toolTips('.classtoolTips76','A palavra <em><span class='tooltipsall tooltipsincontent classtoolTips76'>kami<\/span><\/em> significa \u201cm\u00edstico\u201d, \u201csuperior\u201d, \u201cdivino\u201d, estando normalmente ligada ao poder sagrado ou divino.'); <\/script>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o em Foco &gt; Agora, sim, \u201cbotando a m\u00e3o na massa\u201d pra valer &nbsp; Ent\u00e3o, esse foi o resumo da primeira metade da minha jornada. Foram quatro (quase cinco) anos na Editora JBC, aprendendo e crescendo, deixando de ser apenas um \u201ccara que sabe japon\u00eas\u201d para ser um \u201ctalvez profissional do mercado editorial\u201d. 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