{"id":16867,"date":"2021-06-18T09:00:37","date_gmt":"2021-06-18T12:00:37","guid":{"rendered":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/?page_id=16867"},"modified":"2021-06-18T09:07:15","modified_gmt":"2021-06-18T12:07:15","slug":"traducaoemfoco_monica_okamoto_historia_ficcao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_monica_okamoto_historia_ficcao\/","title":{"rendered":"Monica Setuyo Okamoto &#8211; Hist\u00f3ria ou fic\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: right\"><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco\/\">Tradu\u00e7\u00e3o em Foco<\/a> &gt; Hist\u00f3ria ou fic\u00e7\u00e3o?<\/h5>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16868 size-full aligncenter\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"246\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1.jpg 1200w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-280x57.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-768x157.jpg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-340x70.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-220x45.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-100x21.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-130x27.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/banner-site-prancheta-1-460x94.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sociedade japonesa, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, viveu sob a press\u00e3o dos acontecimentos sociais e pol\u00edticos ocorridos desde a reabertura do Jap\u00e3o ao Ocidente em 1868. O acelerado processo de industrializa\u00e7\u00e3o e moderniza\u00e7\u00e3o trouxe como consequ\u00eancias o aumento da popula\u00e7\u00e3o urbana e a crise no setor rural. O Jap\u00e3o, mesmo ap\u00f3s derrotar dois imp\u00e9rios \u2013 a China (1894-1895) e a R\u00fassia (1904-1905) \u2013 \u00a0continuava a amargar o seu atraso tecnol\u00f3gico e a sua crise econ\u00f4mica. Outros tr\u00eas fatores que contribu\u00edram para piorar esse quadro foram: o terremoto de 1923 que devastou a cidade de T\u00f3quio, o desemprego em massa dos universit\u00e1rios em 1927 e a depress\u00e3o mundial de 1929. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o de calamidade, o governo japon\u00eas tomou medidas severas para reverter a crise. Refor\u00e7ou a sua pol\u00edtica de expans\u00e3o colonialista, aumentou seu poderio militar, incentivou a emigra\u00e7\u00e3o e expandiu a xenofobia, especialmente, entre os jovens.<\/p>\n<p>Muitos escritores e intelectuais japoneses chegaram a endossar o ultranacionalismo do governo e a fazer a estetiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica em suas obras. J\u00e1 o partido comunista tinha pouca influ\u00eancia sobre a massa e as ideias marxistas atra\u00edram somente alguns intelectuais urbanos, os quais se limitaram a estudar somente a sua teoria.<\/p>\n<p>O problema dos trabalhadores rurais japoneses foi pontuado por poucos dentro da literatura. Na verdade, a maior parte dos escritores preferia escrever sobre a individualidade, a tradi\u00e7\u00e3o cultural do antigo Jap\u00e3o e a vida da classe m\u00e9dia urbana. Foi nesse contexto que o romance <em>S\u00f4b\u00f4<\/em>, de Tatsuz\u00f4 Ishikawa surgiu. O autor derrubou as conven\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias da \u00e9poca ao tocar profundamente na hist\u00f3ria oficial dos emigrantes japoneses que viajaram para o Brasil nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. As dificuldades, os medos, a mis\u00e9ria e a discrimina\u00e7\u00e3o desses emigrantes foram escancarados na fic\u00e7\u00e3o de Ishikawa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_16869\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16869\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16869\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-scaled.jpg 2560w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-280x170.jpg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-768x465.jpg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-1536x930.jpg 1536w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-2048x1241.jpg 2048w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-340x206.jpg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-220x133.jpg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-100x61.jpg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-130x79.jpg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/p-20210429-094803-vhdr-auto-460x279.jpg 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-16869\" class=\"wp-caption-text\">\u00a9 Ateli\u00ea Editorial \/ Foto: FJSP<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Acredito que o aspecto b\u00e1sico da obra <em>S\u00f4b\u00f4<\/em> reside nos cruzamentos entre literatura e hist\u00f3ria que se apresentam intrinsecamente ligados, o que dificulta a defini\u00e7\u00e3o de seu g\u00eanero liter\u00e1rio. Partindo desse ponto, pretendo discutir de que maneira o autor levou a problem\u00e1tica hist\u00f3rica da imigra\u00e7\u00e3o japonesa para dentro da fic\u00e7\u00e3o. O grau de lirismo e objetividade, que deveriam configurar o romance, n\u00e3o \u00e9 suficiente para classific\u00e1-lo como fic\u00e7\u00e3o. A obra de Tatsuz\u00f4 \u00e9 carregada de testemunho da realidade, al\u00e9m de se propor a fazer uma documenta\u00e7\u00e3o da sociedade da \u00e9poca.<\/p>\n<p><em>S\u00f4b\u00f4<\/em> narra a saga dos emigrantes japoneses que partem para o Brasil na d\u00e9cada de 1930. A hist\u00f3ria \u00e9 dividida em tr\u00eas cap\u00edtulos, nos quais em cada um deles \u00e9 narrada uma etapa da viagem. No cap\u00edtulo inicial, o autor descreve a chegada dos emigrantes \u00e0 hospedaria de Kobe, onde passam alguns dias antes do embarque. Tatsuz\u00f4 chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor para a pobreza expl\u00edcita e cruel, as hist\u00f3rias de vida desses trabalhadores que vinham do interior e, principalmente, o \u201cmedo do estrangeiro\u201d que esses viajantes sentiam. J\u00e1 o segundo cap\u00edtulo \u00e9 dedicado totalmente ao cotidiano da viagem dentro do navio, os problemas de comportamento e a discrimina\u00e7\u00e3o racial e social que os emigrantes japoneses enfrentam pela primeira vez fora de seu pa\u00eds. O autor narra tamb\u00e9m as p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de viagem dentro da embarca\u00e7\u00e3o, a podrid\u00e3o do sistema mercantil, os neg\u00f3cios escusos, o enriquecimento il\u00edcito das empresas de emigra\u00e7\u00e3o japonesa. O terceiro e \u00faltimo cap\u00edtulo conta a chegada dos emigrantes ao porto de Santos, o choque cultural e a busca de um novo destino nas col\u00f4nias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_16889\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-16889\" class=\"img-responsive img-fluid wp-image-16889\" src=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"290\" srcset=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru.jpeg 886w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-280x180.jpeg 280w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-768x495.jpeg 768w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-340x219.jpeg 340w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-220x142.jpeg 220w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-100x64.jpeg 100w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-130x84.jpeg 130w, https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/kasatomaru-460x296.jpeg 460w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><p id=\"caption-attachment-16889\" class=\"wp-caption-text\">Cart\u00e3o Postal Kasato Maru, 1908, Porto de Santos.<br \/>Fonte: <a href=\"https:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Kasato_Maru_Postal_Card.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wikimedia Commons<\/a><\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 importante mencionar que o leitor ter\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de estar caminhando da fic\u00e7\u00e3o, do imagin\u00e1rio, para a historiografia. Isso ocorre gra\u00e7as \u00e0 posi\u00e7\u00e3o plana, sem destaque da personagem central que contrasta com os fatos e acontecimentos narrados pelo autor. A obra, no entanto, est\u00e1 longe de ser uma narrativa de fatos hist\u00f3ricos. Al\u00e9m do lirismo de Ishikawa, encontramos muitas marcas de ironia, uma tend\u00eancia dos romances ocidentais dos anos 1930.<\/p>\n<p>Ishikawa transformou seu relato em fic\u00e7\u00e3o, o que lhe permitiu preencher as lacunas existentes em sua mem\u00f3ria com o imagin\u00e1rio, sem lhe pesar a responsabilidade de ter que narrar os fatos dentro dos rigores emp\u00edricos da hist\u00f3ria oficial, com fidelidade absoluta. Por outro lado, como narrador ficcional, ele pode descrever a vida social da \u00e9poca com muitos detalhes, inserir dados externos como a \u00e9tica, a ironia e a moral no seu discurso. Ficcionalizando os fatos hist\u00f3ricos, Ishikawa encontra liberdade para expressar a sua vis\u00e3o cr\u00edtica, al\u00e9m de utilizar um dado externo que n\u00e3o caberia na hist\u00f3ria positivista: a ironia.<\/p>\n<p>Para os cr\u00edticos japoneses, Ishikawa abra\u00e7ou um projeto social ao assumir a tarefa de interpretar as crises pol\u00edticas e sociais contempor\u00e2neas. Sua literatura de den\u00fancia, com ideias politicamente perigosas para a \u00e9poca, atingiu o seu auge ao dar voz a uma classe renegada pelo governo e pela pr\u00f3pria sociedade japonesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h4 style=\"text-align: center\"><strong><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_monica_okamoto\/\">&lt;&lt; 1. Monica Setuyo Okamoto &#8211; S\u00f4b\u00f4<\/a>\u00a0\/\/\u00a0 <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_monica_okamoto_pertinencia\/\">3. Pertin\u00eancia e desafios da tradu\u00e7\u00e3o de <em>S\u00f4b\u00f4<\/em>\u00a0&gt;&gt;<\/a><\/strong><\/h4>\n<p style=\"text-align: center\"><a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_monica_okamoto\/\">1\u00a0<\/a>\u30fb\u00a0<strong> [ 2 ]\u00a0<\/strong> \u30fb <a href=\"https:\/\/fjsp.org.br\/fjsp\/traducaoemfoco_monica_okamoto_pertinencia\/\">3<\/a><\/p>\n<h6 style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #000000\">*Os usos de imagens e conte\u00fados desta p\u00e1gina s\u00e3o exclusivamente para fins educacionais e de divulga\u00e7\u00e3o de cultura japonesa, sem fins comerciais.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o em Foco &gt; Hist\u00f3ria ou fic\u00e7\u00e3o? &nbsp; A sociedade japonesa, nas d\u00e9cadas de 1920 e 1930, viveu sob a press\u00e3o dos acontecimentos sociais e pol\u00edticos ocorridos desde a reabertura do Jap\u00e3o ao Ocidente em 1868. 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