3. As obras de Yoko Tawada que conquistam o mundo

AS OBRAS DE YOKO TAWADA QUE CONQUISTAM O MUNDO 

 

Keiko Susaki 

Pesquisadora 

Institute for Global Leadership 

Ochanomizu University 

 

Tradução de Anna Ligia Pozzetti de Abreu

Komorebi Translations

Foto: © FJSP

 

 

1. Rumo à Era das Escritoras

Não há quem não se surpreenda ao saber que, no Japão de mais de mil anos atrás, as mulheres escritoras faziam grande sucesso. Mas, talvez, Shikibu Murasaki e Sei Shōnagon tenham sido casos especiais, visto que, posteriormente a elas, a genealogia de escritoras mulheres foi rompida. Os autores que mais ganham destaque nas salas de aula de escolas japonesas atualmente são, em sua maioria, homens, como Sōseki, Ōgai, Akutagawa, Kawabata, Tanizaki, entre outros. É de conhecimento geral que o Japão ocupa uma posição significativamente baixa no ranking global de igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial. As principais causas dessa colocação estão na baixa porcentagem de mulheres parlamentares (apenas 9,9% dos membros da Dieta) e em cargos de liderança (menos de 20%). 

 

Na contramão dessa tendência, destaco o notável sucesso de autoras japonesas na atualidade. Em 2020, o Prêmio Akutagawa (Akutagawa Ryūnosuke Shō) laureou Haneko Takeyama e Rin Usami e, no primeiro semestre de 2021, o prêmio foi dividido entre as autoras Mai Ishizawa e Li Kotomi. A maior parte dos vencedores dos dois principais prêmios da literatura japonesa, o Prêmio Akuagawa e o Prêmio Naoki (Naoki Sanjūgo Shō), são homens, entretanto, a proporção de mulheres tem aumentado de forma constante desde o início do século XXI. 

 

Até a década de 1980, a qualificação para se referir à literatura de autoria feminina era joryū bungaku (女流文学) ao invés de josei bungaku (女性文学), mas essa palavra já não é mais utilizada hoje em dia, pois remete à trabalhos de mulheres em áreas tradicionalmente dominadas por homens. A palavra fujin (婦人), que tem forte conotação à ideia de uma mulher casada, também caiu em desuso, indicando que as palavras mudam de acordo com o momento histórico. Isso acontece pois a percepção e consciência das pessoas evoluem com o passar do tempo e a literatura é capaz de captar essas transformações na sociedade de forma sensível. Em comparação com os autores que vieram retratando as grandes narrativas da criação do Japão moderno, as escritoras têm apresentado, de forma cuidadosa, as empreitadas cotidianas do ser humano. Essas abordagens foram muito bem recebidas pela sociedade e são cada vez mais procuradas nas estantes das livrarias. 

 

A Era Heisei (1989-2019) foi bem mais curta e durou metade do que foi a Era Shōwa (1926-1988), não durando mais do que 30 anos. No entanto, acontecimentos importantes no começo da Era Heisei, como o Massacre da Praça da Paz Celestial e a Queda do Muro de Berlim no outono do mesmo ano e posterior dissolução da União Soviética, mostraram que essa também foi uma era turbulenta, não ficando atrás da Era Shōwa nesse quesito. Após o estouro da bolha especulativa em 1992, a economia japonesa entrou em fase de desaceleração e grandes desastres naturais e acidente nuclear também aconteceram. Olhando para a situação que envolve as mulheres, as estatísticas do primeiro ano da Era Heisei (1989) registraram o mais baixo índice de natalidade desde quando esses dados começaram a ser registrados, fato que ficou conhecido como “choque 1.57”, indicando que esse número surpreendeu a população. Consequentemente, a queda no número de filhos se tornou um grande tema na sociedade japonesa. Em meio a falta de eficácia da Lei de Igualdade de Oportunidades de Emprego entre Homens e Mulheres, a Lei antiviolência doméstica (2001) foi estabelecida e, apesar de haver uma tendência de melhoria em relação à igualdade de gênero, a mentalidade de que as atividades domésticas e de cuidado dos filhos são uma tarefa feminina ainda persiste enraizada entre os japoneses. 

 

2. Fronteiras que se fundem

Yoko Tawada iniciou suas atividades de escrita e passou a se destacar mais ou menos nesse mesmo contexto do descortinar da Era Heisei. Mudou-se para a Alemanha assim que terminou a graduação e ainda hoje mora nesse país, onde segue produzindo tanto em japonês como em alemão. Em 1991, ganhou o seu primeiro prêmio, o Prêmio de Literatura Gunzō Shinjin (Gunzō Shinjin Bungakushō) , que reconhece novos escritores, com a obra Kakato wo Nakushite (Missing Heels) e foi laureada com o Prêmio Akutagawa em 1993, com o livro Inu muko iri (The Bridegroom Was a Dog). Posteriormente, seu trabalho foi reconhecido por meio dos prêmios Kyōka Izumi (Izumi Kyōka Bungakushō) e Tanizaki (Tanizaki Jun’ichirō Shō), mas suas obras não são aclamadas apenas no Japão. Na Alemanha, suas obras foram agraciadas com o Prêmio Adelbert von Chamisso, a Medalha Goethe e o Prêmio Kleist. O Prêmio Kleist, que completa 100 anos em 2023, é concedido a escritores em ascensão, mas é raro que escritores estrangeiros que não possuem o alemão como primeira língua recebam o prêmio. 

 

Em 2020, ano seguinte ao término da Era Heisei, Tawada ganhou a Medalha de Honra Shiju Hōshō, conhecida como Medalha da Fita Púrpura e disse¹, em entrevista ao Jornal Asahi, que a cor púrpura é a cor da fusão entre o homem e a mulher e que, por isso, gostaria que cada vez mais pessoas conhecessem “o universo colorido dos romances que ultrapassam as fronteiras de gênero e cultura”. Nas obras de Tawada, que são tecidas no limite da fronteira entre o antagonismo e a fusão de duas culturas, enquanto as línguas japonesas e alemã travam uma batalha, a sua linguagem única ganha destaque a ponto de ser reconhecida internacionalmente. Uma prova clara desse feito foi ser laureada com o prêmio norte-americano National Book Award na categoria de tradução em 2018. 

 

Durante a Era Heisei, marcada por tantas transformações, Tawada lançou muitas obras, visitou diversos países com entusiasmo e realizou muitas palestras e leituras públicas. O resultado de suas atividades, que mais parecem eliminar as fronteiras idiomáticas e entre países, foi incorporado em cada uma de suas obras. Por exemplo, em Nisou to cupid no yumi a autora revive a experiência que teve quando passou um período em uma abadia na Alemanha. Enquanto o início da trama conta com uma protagonista japonesa, na segunda parte, quando nos damos conta, a figura principal do livro passa a ser uma alemã. Em Memórias de um urso-polar, Tawada propõe observar o mundo não do ponto de vista de um alemão ou de um japonês, mas de um urso-polar, deixando de lado as fronteiras físicas, de nacionalidade e de idioma. Conforme Tawada explica² “o pequeno urso-polar cruza livremente, ou não tão livremente assim, as fronteiras da União Soviética e da Alemanha Oriental, bem como da Alemanha Ocidental e Oriental”. Isso indica que seus protagonistas se movem como querem, independentemente das fronteiras que existem entre países, idiomas, animal e humano, homem e mulher. 

 

E por que Tawada segue morando na Alemanha? Conforme sua própria explicação, ela se recusa a ser completamente absorvida pelo universo de apenas uma língua. De acordo com suas palavras, 

Se eu puder usar uma língua, então não existe liberdade. Eu não conseguiria fazer comparações com outras referências e minhas ideias ficariam limitadas a essa gaiola do monolinguismo. (…) Eu decidi me mudar para a Alemanha exatamente por ter entendido que é possível construir uma relação com as palavras, sem ficar presa a nenhuma estrutura.³

 

Tawada se posiciona nas frestas entre duas línguas e esses embates e fusões que acontecem dentro dela criaram “uma escrita da língua japonesa que é um blend com outro idioma (alemão)”. A própria língua japonesa que ela utiliza em suas obras foi se transformando e sendo transformado por ela e é exatamente por isso que, em suas obras, observamos muitas descrições com jogos de palavras. Na versão em japonês da obra Borudō no gikei (Schwager in Bordeaux), que ela mesma traduziu a partir do original em alemão, os títulos de cada capítulo foram impressos em ideogramas escritos de espelhados. Na versão original em alemão, o uso das letras do alfabeto alemão se mistura com os ideogramas em japonês que compõem o título de cada capítulo. Seu objetivo ao inverter os ideogramas foi o de causar, nos japoneses, o mesmo estranhamento que um alemão sentiu ao se deparar com um ideograma no meio do livro.  

 

3. As obras de Tawada se espalham em escala mundial

  O único romance de Tawada disponível em português é o Memórias de um Urso-Polar (Tradução de Lucia Collischonn de Abreu, Todavia, 2019). Essa obra foi escrita em japonês e alemão de forma quase concomitante, mas, excetuando as edições em chinês e islandês, todas as outras traduções partiram da versão em alemão (4). 

 

  Por isso, o enredo da narrativa de ambas as versões é igual, contudo, na versão em alemão, é possível encontrar várias expressões espalhadas pela obra que não são equivalentes diretos do japonês, além de neologismos criados por ela. A obra está repleta de truques que apenas Tawada e sua admirável habilidade com as palavras conseguem realizar. O ensaio em alemão publicado em 2007, intitulado Sprachpolizei und SpielpolyglotteKonkursbuch Verlag), não possui uma versão em japonês e sua tradução a partir do alemão foi publicada no ano passado com o título Polícia da língua e poliglotas jogadoresClass). Diante da tendência de suas obras serem traduzidas a partir do alemão, sem passarem pelo japonês, é muito interessante notar que foi publicado um livro (5), em português, sobre a Tawada, o qual é resultado de pesquisas desenvolvidas por professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com o apoio do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD). 

 

Nos dias de hoje, em que a noção de “literatura mundial”, que não se prende a nacionalidades e idiomas, tem ganhado destaque, pode-se afirmar que entramos em uma nova fase de recepção da literatura de Tawada em escala mundial. No Japão, desde o outono passado, acompanhamos os lançamentos dos capítulos da obra Taiyō Shotō, que dá continuidade à série de livros Chikyū ni chiribamerarete (2018) e Hoshi ni honomekasarete (2020). Essa série aborda diversos temas, como idioma, etnicidade e gênero. A partir de fevereiro deste ano a autora passou a publicar um novo folhetim, com a história sobre uma protagonista japonesa que vive em Berlim. 

 

Referências Bibliográficas

(1) Artigo do Asahi Shinbunpublicado em 3 de novembro de 2020. 

(2) Tawada Yoko YOKO TAWADA gengohigengobunkaibunka no hazamade kotoba wo amu (Apenas em japonês). Disponível em: http://www.newsdigest.de/newsde/features/7929-yoko-tawada/ 

(3) “Yoko Tawada X Prabda Yoon――Between Language and Culture https://jfac.jp/culture/features/f-ah-yoko-tawada-prabda-yoon/ 

(4) Encontro literário da autora com estudantes da Universidade de São Paulo, mediado pela Profª Dra. Neide Hissae Nagae, Biblioteca da Fundação Japão (10 de dezembro de 2019). 

(5) NEUMANN, G. R.; RICHTER, C.; DAUDT, M. I. (Org.). Yoko Tawada: Sua recepção no Brasil, Porto Alegre: Class, 2021. 

 

KEIKO SUSAKI 

Ph.D. em Literatura Latino-americana. Pesquisadora do Institute for Global Leadership, da Ochanomizu University, em Tóquio. Colaboradora estrangeira do Grupo de Pesquisas “Pensamento Japonês: princípios e Desdobramentos”, da Faculdade Filosofia, Letras e Ciência Humanas da USP, CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Pós-Doutorado pela Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. This work was supported by JSPS KAKENHI – Japan Society for the Promotion of Science – Grant Number JP20K12982. Mais informações: https://researchmap.jp/susakikeiko?lang=en 

 

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