Experiências


Renato Cesar Sato

Publicado por mimi em

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Tokyo: inovação e tradição.

Como é pesquisar numa universidade japonesa? Como é viver no Japão no papel de pesquisador? Talvez essas sejam algumas das perguntas que ecoam na mente de muitas pessoas que pensam em incluir o Japão como destino em sua jornada acadêmica. Existem, obviamente aqueles cujo interesse nos aspectos da cultura nipônica é de longa data, e, portanto, já possuem um conhecimento acerca dessas questões por meios diversos, desde pesquisas na internet ou mesmo relatos orais de quem já esteve no país. Esse pequeno texto busca modestamente ser apenas um relato pessoal. O Japão para muitos pesquisadores que não são descendentes pode gerar uma certa ansiedade e insegurança por ser uma sociedade muito diferente. Isso foi o que eu ouvi quando comentei para colegas se não gostariam de considerar esse como um possível destino para seu aperfeiçoamento profissional. Porém, essa incerteza e ansiedade promove também a possibilidade de se maravilhar com aquilo que é novo, aquilo que foge da nossa realidade cotidiana. É sobre esse aspecto que gostaria de iniciar esse breve relato. Tomei conhecimento da bolsa de Fellowship da Fundação Japão já fazia alguns anos, no entanto, o ritmo do trabalho e as responsabilidades acadêmicas acabaram adiando meus planos por alguns anos. Em 2019 organizei tudo para que pudesse ficar ausente da universidade por um curto período de tempo e pudesse continuar no Japão uma pesquisa que já estava em andamento no Brasil. Estava orientando alunos no curso de pós-graduação na área de inovação tecnológica e pesquisa operacional da Universidade Federal de São Paulo nos aspectos relacionados com gestão tecnológica. Um dos temas da pesquisa em desenvolvimento era a questão da transferência tecnológica entre universidades e indústria, e, também sobre a capacidade de produzir inovações. Era, sem dúvida, um tema desafiador e amplo, porém de grande importância; decidimos, no entanto, focar especificamente no desenvolvimento de um modelo econométrico para analisar os dados decorrentes da produção tecnológica e inovação oriundas da pesquisa desenvolvida em universidades. Isto é, tentamos inicialmente identificar quais os principais fatores que poderiam contribuir para o aumento no número de patentes utilizando modelos de produção estocástica para medir a capacidade de produção. Como a relação entre universidade e indústria no Japão já estava estabelecido por meio de políticas nacionais o país se tornou um candidato natural em nosso estudo. Foi com base nesse contexto acadêmico que me candidatei a bolsa de Fellowship.

A notícia que fui contemplado com a bolsa de Fellowship foi recebida com grande entusiasmo e alegria pois poderíamos não apenas analisar os dados, mas também entrevistar e conversar com pesquisadores que vivenciaram essa política de transferência tecnológica. O meu período no Japão seria do dia 12 de dezembro de 2019 até 09 de fevereiro de 2020, isto é, 59 dias. Por se tratar de uma bolsa de pesquisa de curto prazo todas as iniciativas da pesquisa deveriam ser otimizadas, assim antes da partida já comecei a entrar em contato com pesquisadores para preparar a minha estadia e estrutura de trabalho e visitas técnicas. Essa preparação prévia foi fundamental para aproveitar todas as semanas da melhor forma possível, especialmente por eu chegar na época de final de ano e das curtas férias de inverno dentro da universidade.

Chegar no Japão não é fácil, afinal estamos falando de uma longa viagem, talvez uma das mais longas quando pensamos no percurso. No entanto, a sensação de estar cansado logo se esvazia no momento em que se chega no aeroporto. Tudo é novo e diferente e a sensação de explorar o país gera um grande entusiasmo. Não posso deixar de mencionar que todo esse processo de preparo e chegada também é um desafio, mas felizmente pude amenizar essas dificuldades a gentileza e generosidade de várias pessoas, dentre elas as equipes da Fundação Japão no Brasil e no Japão que tornaram tudo o mais tranquilo possível.

 

 

Chegando no Japão.

 

Chegando no início do inverno foi possível apreciar a mudança da estação dentro do campus da universidade. Mesmo no período das férias de inverno foi possível participar de eventos acadêmicos que aconteceram dentro e fora da universidade, isso propiciou um período de grande dinâmica e interação para conhecer novas linhas de pesquisa.

 

Campus da The University of Tokyo.

 

Outra facilidade que tive foi ficar alojado em um apartamento pertencente a universidade a poucos minutos do campus. O percurso entre meu apartamento e a universidade era de cerca de 10 minutos andando ou um pouco mais. Tratou-se de um apartamento individual muito confortável com uma série de amenidades, além de ser muito bem localizado perto da estação de metrô e comércios como supermercados, lojas de conveniência e restaurantes.

 

Prédio de apartamentos da universidade.

 

O meu local de trabalho seria a Universidade de Tóquio na Graduate School of Interdisciplinary Information Studies. A Universidade de Tóquio fica numa região de fácil acesso, e é importante mencionar que Tokyo possui várias regiões criando a impressão de haver várias cidades dentro da metrópole. A diversidade é tanta que durante todo período de pesquisa praticamente não precisei ir para outras regiões do país tamanha é a diversidade desse megacentro urbano.

 

Prédio da Graduate School of Interdisciplinary Information Studies na The Universidade de Tokyo.

 

O meu departamento de pesquisa contou com um espaço compartilhado amplo e confortável para realizar a pesquisa. A disponibilidade irrestrita dos horários foi extremamente útil para adiantar os trabalhos nos finais de semana.

 

Meu espaço de pesquisa.

 

Aproveitei o período das festas do final de ano para produzir ao máximo na minha pesquisa, a universidade estava vazia e pude trabalhar com muita tranquilidade. Como a pesquisa envolvia uma análise do ponto de vista econométrico dados da produção universitária na forma de patentes e as características quantitativas de cada universidade recorremos aos dados públicos do Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT) e o meu orientador da pesquisa no Japão contribuiu avaliando conjuntamente os dados brutos antes deles serem estatisticamente analisados. No contexto da pesquisa, após a recessão econômica enfrentada pelo Japão durante os anos 90 a cooperação entre as universidades e indústria foram incentivadas como forma de promover o crescimento econômico através do estabelecimento de novos negócios e produtos. Esse processo foi implementado através de uma reforma na Lei Básica de Ciência e Tecnologia e da aprovação da Lei de Promoção da Transferência Tecnológica da Universidade para a Indústria em 1998.  Passados mais de uma década a pesquisa tentou avaliar através de um modelo de produtividade estocástica a produtividade acadêmica na forma de inovações. Essa experiência de como o Japão tentou promover a relação entre universidade e indústria é um tema que ainda rende investigações acadêmicas. Para aqueles que se interessam pelo assunto o livro intitulado de Fulfilling the Promise of Technology Transfer – Fostering Innovation for the Benefit of Society organizado por Hishida, Koichi e publicado pela editora Springer em 2013 oferece um panorama de como as universidades e os institutos de pesquisa podem contribuir para a sociedade por meio das inovações decorrentes dos resultados de pesquisa e do estabelecimento de novas tecnologias.

 

O Fellowship permitiu extrapolar a pesquisa para além da leitura de artigos e análise de dados, pois com a estadia foi possível realizar entrevistas e conversas com professores de universidades, professores eméritos envolvidos com empresas de base tecnológica, pesquisadores sêniores em institutos de pesquisa governamentais e diretores de organizações relacionadas com desenvolvimento tecnológico. Por meio das visitas técnicas e participação de eventos com pesquisadores renomados foi possível um aprofundamento sobre o assunto e também compreender as mudanças na sociedade japonesa do ponto de vista econômico e político nos últimos anos. As visitas técnicas não estiveram limitadas apenas ao ambiente acadêmico foi possível conhecer institutos de pesquisas e grupos profissionais que lidam com tecnologias na área de economia.

Visitar tantas pessoas e lugares em tão pouco tempo foi beneficiado pela facilidade de se locomover no centro urbano da capital do Japão, apesar de Tóquio ser notoriamente conhecida como uma metrópole extremamente populosa o transporte público que é muito eficiente. Durante meu período de estadia, Tóquio estava se preparando para receber os Jogos Olímpicos, tornando a cidade ainda mais preparada para receber estrangeiros de todos os países com muitas informações em outros idiomas além do japonês.

 

Estação de Metro.

 

Esse preparo é facilmente percebido nas grandes estações como Tóquio e Shinjuku possuem uma constante movimentação de pessoas a todo tempo, porém tudo funciona de modo eficiente.

 

Estação de Tóquio.

 

Ainda sobre os aspectos do dia a dia, o Japão é um país altamente conectado com vários pontos de internet gratuita disponível. Com isso a possibilidade de utilizar um smartphone como guia é muito atrativo por permitir ter o mapa e itinerários dos transportes na ponta dos dedos. No meu caso comprei um chip pré-pago na loja de eletrônicos já no desembarque no aeroporto pois poderia avaliar a minha rota de deslocamento desde o aeroporto. A configuração é muito simples e imediatamente estava conectado na internet móvel, existem várias opções para adquirir diferentes planos de internet já no aeroporto. Estar conectado mostrou-se muito útil para percorrer a cidade durante a pesquisa de campo e visitar institutos mais distantes da universidade.

Em questão de turismo e explorar a cidade, diversas estações de trem e metrô forneciam gratuitamente guias turísticos impressos em diversos idiomas. Esses guias também ofereciam mapas da cidade, as redes ferroviárias e metroviárias, pontos turísticos e de interesse, locais de alimentação, hospitais, áreas de compras, parques entre muitas outras estruturas. Esses guias para turistas também ofereciam descontos em museus e outras atrações da cidade.

Após algumas semanas de pesquisa, no início do ano de 2020 a Fundação Japão ofereceu um evento e jantar de alta qualidade para os bolsistas. Foi uma excelente oportunidade para conhecer pesquisadores de outros países, trocar experiências e fazer novas amizades com outros bolsistas dos mais diversos países. Durante o evento alguns pesquisadores que estavam no Japão há mais tempo tiveram a oportunidade de apresentar seus trabalhos.

 

Prédio da Fundação Japão em Tóquio.

 

Abaixo a fotos de alguns doces típicos japoneses preparados na hora e oferecidos aos bolsistas no dia do evento.

 

Doces japoneses oferecidos após o jantar na Fundação Japão.

 

Visitar um país é também visitar sua história, a visita ao Museu Nacional foi espetacular para conhecer mais sobre a história do país e aproveitar ao máximo a estadia no Japão. Mesmo para as pessoas que não são fluentes no idioma japonês visitar os museus tornou-se algo muito atrativo e fácil. Atualmente é possível realizar o download do aplicativo de vários museus para ouvir a narração em inglês (em um outro museu que visitei foi possível ler as descrições até na língua portuguesa) como um passeio guiado permitindo aproveitar o máximo a experiência. Uma dica importante aqui é de não esquecer de levar o seu fone de ouvido, vários museus não os disponibilizam para os visitantes.

 

Museu Nacional de Tóquio.

 

Como toda metrópole cheia de história, o Japão oferece não apenas a vivência do passado e de sua rica história. Como diz em uma placa que encontrei numa das estações de metrô em preparação para as Olimpíadas de Tóquio 2020, “Tokyo: Old meets New”.

 

Anúncio na estação de metrô de Tóquio.

 

Isso é facilmente percebido ao visitar museus focados na tecnologia e no futuro. Museus como o teamLab Borderless e o Museu do Futuro foram excelentes oportunidades para visitar exposições com perspectivas da atualidade e do futuro. Obviamente essa relação entre sociedade e tecnologia era um assunto extremamente interessante e inter-relacionado com o propósito da pesquisa que fui desenvolver trazendo novas cores e nuances sobre o tema que estava estudando.

 

Museu do teamLab Borderless.

 

Museu do teamLab Borderless.

 

Eu definiria o museu Borderless como um museu de arte digital onde obras envolvendo luz e som são apresentados em vários ambientes criando uma experiência insólita. Diferente dos museus tradicionais as exposições possuem uma forma de interação com os visitantes onde esses parecem mergulhar em sons e imagens que inspiram e promovem sensações.

 

Museu Miraikan.

 

Já o museu Miraikan tem uma abordagem de fazer o visitante pensar sobre o futuro numa relação desde como a internet funciona até quais os desafios ambientais que devem ser enfrentados no futuro. Ambos os museus são grandes e próximos um do outro na ilha de Odaiba e merecem ser visitados com tempo para poder aproveitar o que eles têm a oferecer.

Para aqueles que desejam realizar pesquisas no Japão e que nunca tenham travada um contato prévio com a cultura e idioma sugiro tentar aprender antecipadamente o básico para se comunicar, isso fará uma enorme diferença no seu dia a dia. Mesmo em cidades cosmopolitas como Tóquio onde muitas informações estão em inglês, o fato de dizer algumas coisas no idioma japonês fará toda a diferença para interagir com as pessoas locais. Tenho a impressão que isso permite se aproximar da cidade e de sua dinâmica tornando a experiência muito mais profunda e proveitosa. Busque também conhecer um pouco da universidade e cidade que pretende ficar, pois cada uma terá uma cultura distinta que pode variar muito conforme a região.

Devo acrescentar que essa não foi a primeira vez que visitei o Japão, no entanto, a cada vez é uma nova descoberta e sempre fica aquela vontade de retornar. O tempo passou rápido demais, mas foi possível realizar a pesquisa planejada, conhecer mais sobre o país e sua cultura, visitar antigos amigos e reafirmar nossos laços de amizade, e também criar novos amigos e contatos profissionais.


Renato Cesar Sato, professor associado na área de economia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) no campus do Instituto de Ciência Tecnologia em São José dos Campos. Foi bolsista da “Japan Foundation Japanese Studies Fellowship Program (Japanese Studies Overseas and Intellectual Exchange)”, de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, na The University of Tokyo.

Fotos: Acervo pessoal



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