Camilo Carrara (Violão)

Neste sétimo programa da série de concertos solos “Música no Castelo”, apresentaremos o violão, com o músico, violonista e produtor musical Camilo Carrara, interpretando canções de seu consagrado trabalho “Canções do Sol Nascente”.

 

 

O Violão

O violão é um instrumento de cordas, com uma caixa geralmente feita de madeira, que gera uma acústica facilitando a propagação do som. Em alguns países de língua espanhola, é conhecido como guitarra.

A história do violão nos remete a aproximadamente 2.000 a.C. Sofreu uma grande transformação até chegar ao instrumento que conhecemos nos dias de hoje. Foi na Grécia, o registro do antepassado do violão, uma casca de tartaruga fechada com couro de boi, tendo como cordas tripas de carneiro esticadas. Esse é o mais remoto registro do violão.

Derivado do alaúde árabe, foi levado pelos mulçumanos para a península Ibérica, adaptando-se muito bem às atividades da corte. Há também a hipótese que atribui sua origem à cítara romana, tendo seu uso expandido com a dominação do Império Romano.

Outro parente é a viola de mão ou vihuela, um instrumento de cordas ibérico parecido com o alaúde renascentista, mas que não é um antepassado da guitarra (violão), com a qual coexistia, embora partilhem um formato parecido.

 

Vihuela

 

Ao final do século 16, a viola de mão caiu em desuso e entrou na moda a guitarra barroca de cinco cordas, à qual foram frequentes as modificações para adaptá-la às novas exigências. Fato que possivelmente tenha influenciado para que poucas vihuelas originais tenham se conservado.

Em 1832, Louis Panormo construiu um instrumento muito próximo ao que conhecemos hoje como violão clássico, embora menor e com cintura mais acentuada. Em 1859, o luthier espanhol Antonio de Torres Jurado criou o instrumento que atualmente define sua história, tendo se tornado o violão clássico.

A primeira notícia que se tem sobre este instrumento no Brasil ocorre no século 17, em São Paulo. A confusão entre a viola e o violão começa em meados do século 19, quando a viola é usada com uma afinação própria do violão, isto é, lá, ré, sol, si, mi.

Neste contexto da colonização temos a introdução da viola (instrumento de 10 ou 5 cordas duplas), trazida pelos portugueses ao Brasil. Por certo tempo, ainda houve uma confusão em relação aos termos viola /violão no país. Hoje, porém, a discrepância entre os dois instrumentos é notória.

 

 

A utilização do violão é umas das mais diversificadas, podendo ser utilizado tanto na música instrumental (orquestras), quanto em acompanhamento da voz (canções solo). Por um período da história, o violão foi difamado, pelo fato de ser o instrumento preferido dos boêmios e seresteiros. O título de “instrumento marginal”, “coisa de vagabundo”, no entanto, já foi superado.

A música brasileira para violão tem por base a pequena obra de Heitor Villa-Lobos, importante violonista nacional. Tendo sua vida sido adaptada para o cinema (Villa-Lobos – Uma Vida de Paixão, 2000), o músico é autor, entre outras obras, de 12 Estudos para Violão.

O país cultivou sua própria safra de violonistas, podendo citar, entre eles, Clementino Lisboa, que iniciou apresentações de violão em público apresentando o instrumento para a elite carioca; Joaquim Santos, fundador da revista O Violão; Aníbal Sardinha, precursor da bossa-nova; Jorge do Fusa; Américo Jacomino; Nicanor Teixeira; entre outros.

No Japão, o violão se tornou um instrumento bastante popular, muito utilizado tanto na música erudita como na popular japonesa. Vale lembrar o belo trabalho de luteria desenvolvido por japoneses, que hoje contam com grandes nomes no cenário musical mundial.

 

Camilo Carrara

Diretor e produtor musical, violonista, multi-instrumentista, arranjador, compositor, professor e consultor de sound branding (identidade sonora das marcas). Bacharel pelo Departamento de Música da ECA-USP e especialista em Gestão de Marketing Estratégico com MBA pela FEA-USP. Professor de violão do Nacional Music Festival, em Maryland (Estados Unidos) e do Departamento de Música da Faculdade Cantareira, em São Paulo. Sua discografia consiste em mais de 80 CDs, entre colaborações e trabalhos solo.

 

As músicas

A ideia de gravar um CD com músicas japonesas nasceu em janeiro de 2002, em Poços de Caldas-MG. Havia sido convidado por meu amigo Fábio Zanon para trabalhar como seu assistente no III Festival Música nas Montanhas. Durante o festival, ouvi pela primeira vez um arranjo de uma canção japonesa feito para violão solo. Era um arranjo de Sakura, canção tradicional composta no final do século XIX. Fiquei realmente impressionado – a atmosfera criada pelo casamento daquela melodia com a sonoridade do violão me seduziu. Por um bom tempo, aquele som não saiu da minha cabeça.

De volta a São Paulo, revirei a cidade atrás de partituras de músicas japonesas e pouco encontrei. Depois de muita pesquisa, ganhei de presente, do amigo Akira Joko, uma coletânea de canções trazidas diretamente do Japão. O livro, totalmente escrito em japonês, apresentava 189 melodias cifradas. No mesmo dia, iniciei o trabalho de ler, uma a uma, as melodias do álbum, selecionando as que mais me tocavam. Passados alguns meses, resolvi fazer um teste: marquei um horário no estúdio e gravei, de improviso, várias das canções escolhidas. Nessa época, estava pesquisando um tipo de afinação alternativa para um dos meus violões. Misturei encordoamentos de aço e nylon e afinei o instrumento dois tons abaixo da afinação usual. A solução me surpreendeu e aproveitei para utilizar nas gravações.

Para fazer a gravação, selecionei 24 melodias entre cantigas infantis, canções de lembranças, canções de estudantes e canções folclóricas. São canções que os japoneses gostariam que fossem cantadas por gerações seguidas e que permanecessem no coração do povo através dos séculos. Parte delas é utilizada nas escolas com o intuito de auxiliar na formação dos estudantes. Temas como a lua, o mar, a noite, as quatro estações, a terra natal, entre muitos outros, são cantados não apenas por professores, mas também por pais e avós, ajudando a manter a tradição musical nos lares do país do sol nascente.

A opção pela escolha da “Canção”, enquanto gênero musical, privilegiou um diferencial: a utilização de melodias compostas originalmente para serem cantadas. A essência da “Canção” está na alquimia necessária para a fusão entre melodia e texto. Por conta dessa união e de fatores técnicos, como a pequena extensão do aparelho vocal humano, por exemplo, é notória a diferença entre a melodia de uma canção e uma melodia composta para outro instrumento que não seja a voz. Valendo-me desse diferencial melódico, procurei, através dos arranjos, traduzir de forma mais direta, sem a interferência do texto, as qualidades características de cada música.

“A composição japonesa é relativamente pouco conhecida pelo nosso público em geral, estando mais restrita ao ambiente da comunidade nipônica no país. Espero, através desta leitura muito particular, poder contribuir de alguma forma para a divulgação e perpetuação desse admirável repertório.”

 

O Programa

1 – Momiji (T. Takano/T. Okano)
Folha de outono

2 – Medakano gakkou (S. Chaki/Y. Nakada)
Escola de peixes pequenos

3 – Sato no aki (N. Saito/M. Uminuma)
Outono no campo

4 – Yuricago no uta (H. Kitahara/S. Kusakawa)
Canção do berço

5 – Kono michi (T. Takano/T. Okano)
Este caminho

6 – Kojo no tsuki (B. Doir/R. Taki)
Luar sobre castelo em ruínas

7 – Haha no uta (Y. Nogami/K. Simofusa)
Canção da mamãe

8 – Akatombo (R. Miki/K. Yamada)
Libélulas ao entardecer

9 – Sakura sakura (tradicional)
Cerejeiras em flor

10 – Sunayama (H. Kitahara/S. Nakayama)
Dunas

11 – Nanatsu no ko (U. Noguchi/N. Motoi)
Sete filhotes

 

Assista a apresentação do Camilo Carrara no projeto Música no Castelo.