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Otomo Yoshihide

Publicado por FJSP em

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Guitarrista / Turntablist / Compositor / Compositor de Trilhas Sonoras de Filmes / Produtor Musical

Yoshihide Otomo é um dos mais importantes improvisadores e compositores da cena musical contemporânea. No final de 2017, ele visitou o Brasil e outros países da América Latina. No Brasil, tocou em importantes festivais de música experimental, como Novas Frequências, FIME e Improfest. Nós o entrevistamos a respeito das suas diversas atividades nos últimos anos e suas aventuras musicais até agora.

 

* Em inglês/ In english: Otomo Interview

 

1) RAZÃO DE VIR PARA O BRASIL


 

Por que você veio ao Brasil?

Um dia, uma pessoa da The Agency for Cultural Affairs (Agência de Cultura do Governo Japonês) ligou me perguntando se eu gostaria de ser um “Enviado Especial da Cultura”. No começo pensei que fosse um trote, mas acabou por ser verdade.

 

Desde o começo você planejou vir para o Brasil?

Eu queria ir a algum país onde ainda não tinha ido. Então, eu escrevi na minha página do Facebook se alguém gostaria de me convidar para tocar. Eu esperava receber um pedido de países africanos ou países do Oriente Médio, mas isso não aconteceu. Por outro lado, recebi muitos pedidos de países latino-americanos. Mais da metade deles veio da região. Dessa forma, decidi ir ao Chile, Argentina, Brasil e México.

 

Você mesmo escolheu os lugares que gostaria de ir?

Sim, minha política era a de que eu fosse aonde houvesse pessoas que quisessem me convidar para tocar. Além disso, eu estava determinado a ir a algum lugar, desta vez, negociando diretamente com os organizadores e músicos. Esse tipo de coisa é o que eu fazia durante os meus vinte e trinta anos, quando costumava ir para a Europa, EUA, Hong Kong e Coréia. Ao contrário do passado, não fiquei no local de cócoras. (risos)

 

Quanto tempo você ficou na América Latina?

De 31 de outubro a 14 de dezembro de 2017, tive shows quase todos os dias e poucos dias de folga. Eu sempre quis vir para o Brasil, pois gosto da música brasileira. Se eu viesse aqui no passado, provavelmente teria ficado por mais tempo.

 

 

 

2) MÚSICA DE VANGUARDA


 

O que você acha da importância do ruído e da música de vanguarda?

De um modo geral, a música emerge de regiões específicas ou de um grupo étnico. É como uma espécie de linguagem. Então, no processo de modernização, a música, livre dessas origens, apareceu. Eu acho que a música clássica foi a primeira desse tipo, e mais tarde a música pop chegou com a comercialização da música. Embora pareça homogênea na superfície, quando você ouve os Beatles, ainda sente o gosto inglês, e quando ouve música brasileira, você pode perceber o gosto do brasileiro. De qualquer forma, a música não era mais consumida apenas pelos habitantes locais. A música era consumida nas áreas mais amplas de um país, na área onde eles falam a mesma língua ou além da fronteira dos estados, encontrando o mercado neles inserido. Isso aconteceu no século 20.

Eu acho que a música de vanguarda é ainda mais radical do que a música pop, e ela não se liga mais ao conceito de país ou área onde eles falam a mesma língua, mas ainda conectam as pessoas com sua “atitude”.

Por exemplo, ainda estou surpreso que haja pessoas que ouvem minha música no Brasil. As pessoas relacionadas a um determinado tipo de música podem compartilhar um terreno comum e se comunicar umas com as outras. É aqui que vejo o significado da música de vanguarda.

 

Você acha que a música, além da música de vanguarda, tem um significado semelhante?

Acho que todo mundo tem gosto pela música. Eu não acredito que a música de vanguarda seja o único tipo de música que tem o potencial de conectar pessoas. Não há problema de cada pessoa gostar de diferentes tipos de música e daqui em diante, se diversificará com uma mistura de diferentes tipos de música.

 

Então, você acha que o poder da música conectando as pessoas umas às outras é o mais importante?

Para o meu próximo projeto, estou pesquisando os jogos olímpicos da modernidade. Eu acho que foi inventado para impedir guerras entre países, e foi algo que surgiu da sabedoria do ser humano. Mas agora, a guerra não é mais entre nações, e também os jogos olímpicos modernos se tornaram hiper-comercializados. Por isso, não desempenha o mesmo papel que no passado. Agora, penso que o idealismo que os jogos olímpicos modernos carregava é realizado em nível micro, ou entre indivíduos e comunidades através da música, internet ou algo do tipo.

O que eu gostaria de fazer agora é perceber essa conexão pacífica, começando nas regiões do Leste Asiático e do Sudeste Asiático.

 

Houve algum motivo para você começar a pensar dessa maneira?

Eu vim para pensar sobre isso através do projeto que eu fiz com a Japan Foundation Asia Center . Meu projeto é chamado Ensemble Asia1. Eu tenho mantido contatos desde os anos 90, mas com o apoio que recebi da Asia Center desde 2014, houveram mudanças significativas. Para este projeto, fui há países que ainda não tinha ido. Lá, muitas pessoas não me conheciam ou a minha música, então eu tive que explicar porque eu estava fazendo esse tipo de música e porque eu tentei fazer as redes de músicos. Isso me fez reconsiderar minhas atividades e também me forçou a verbalizá-las. Uma referência importante para mim foi o que improvisadores como Derek Bailey2 e seus amigos e músicos alternativos como Fred Frith e Chris Cutler fizeram no passado.

Posso dizer que eles e o que fizeram não podem ser separados do complexo contexto histórico europeu, mas esses músicos pretendiam superar o passado até certo ponto.

 

Você poderia explicar sobre a cena musical na Ásia?

Há três anos, quando comecei meu projeto, os músicos da Ásia começaram a se conectar muito rapidamente. Claro, não é apenas por causa da minha atividade.

Provavelmente o tempo estava maduro para isso. No passado, havia barreiras entre nós, como a linguagem e assim por diante, mas agora as pessoas de cada país obtêm informações da internet e sua expressão também se diversificou.

Posso dizer que chegou a hora de criar essas redes. O que temos que fazer a partir de agora é criar encontros reais para ampliar e fortalecer essa rede. Eu acho que a Ásia seria um lugar cada vez mais excitante por causa desse intercâmbio.

 

Existe alguma característica da música de vanguarda dos países asiáticos emergentes?

Não é fácil comparar, mas acho que na Europa há uma pré-condição de que a música é um tipo de expressão artística.

Nos países asiáticos, as pessoas não consideravam a música como tal, e isso estava muito mais associado ao cotidiano, mas, ao mesmo tempo, isso poderia levar a um sentimento de menor respeito pela música. Esse é um ponto negativo.

De qualquer forma, a partir de uma certa perspectiva, eles estão livres do conceito europeu de arte. Assim, você pode interpretar mal a música asiática utilizando o conceito de vanguarda, que está profundamente enraizado no contexto histórico da arte européia. É uma característica da música alternativa na Ásia que eles tentam estabelecer um terreno comum, criando diversidade ao longo do caminho. Eu acho que isso é o que é emocionante e único sobre a música de vanguarda na região asiática.

 

 

 

3) ENCONTRO COM A MÚSICA BRASILEIRA


 

Ouvi dizer que você gosta muito da música brasileira.

Sim, eu costumava pertencer a um grupo de samba em Tóquio, e toquei surdo por três anos, totalmente comprometido. Nossa equipe de samba venceu a competição de samba em Tóquio naquela época.

 

Por que você parou de tocar samba?

Eu pensei sobre que tipo de música é vernacular para mim. Quando os músicos brasileiros tocavam o ritmo do samba, era bastante intenso, e não havia como recriá-lo para mim. É por isso que parei com o Samba. No entanto, o que aprendi com o Samba me influenciou enormemente em relação à música.

 

Quem foi seu artista brasileiro favorito durante esse período?

Eu diria que foi Nelson Cavaquinho. Ele estava cheio de energia primitiva em relação ao seu canto, assim como seu estilo de tocar violão. Naturalmente, seu rosto icônico e feliz também eram ótimos.

Eu me perguntei por que eu gostava tanto dele e descobri que foi porque ele manteve algo importante que a música começou a perder ao longo da linha com o seu refinamento no século XX. Uma coisa semelhante aconteceu com o jazz, assim como com a música pop japonesa. Eu prefiro algo intenso e cru do que o refinamento na música.

 

Além da música de Nelson Cavaquinho, havia algum ponto em que você se interessasse pela música brasileira?

A harmonia é inteiramente européia, mas o ritmo tem um forte “dialeto”. Esse “dialeto” evoluiu muito e é bastante complicado escrever em partituras. Esta unificação do elemento ocidental e do elemento não-ocidental é semelhante ao pop japonês dos anos 70, e eu achei bastante interessante.

 

Eu entendo, mas o samba e a música de vanguarda são bem diferentes. Eu assumo que os músicos envolvidos em ambos são completamente diferentes também, certo?

(Risos) Claro. Essas pessoas da comunidade de música de vanguarda eram apenas especialistas em música, enquanto as pessoas do grupo de samba eram muito mais diversificadas. O líder do grupo era um músico brasileiro, mas o resto era diferente, havia um médico e um assalariado. Uma pessoa que era bastante ativa no grupo era uma vendedora de peixe.

 

(Risos) Uma vendedora de peixe…

Havia também um cara que trabalhava para uma empresa comercial, falando português fluentemente, donas de casa, etc … nos reuníamos nos domingos de manhã, eram reuniões verdadeiramente animadas. As pessoas da cena de vanguarda eram em sua maioria homens, mas o grupo de samba era diferente, havia muitas mulheres também. Então, o equilíbrio entre os gêneros era melhor, sabe? Eu sempre estive na música de vanguarda e em sua cena, mas às vezes as pessoas pareciam ser um pouco fundamentalistas. Tive um conflito interno porque não gostava do fundamentalismo, mas também não pretendia sair inteiramente do mundo de vanguarda.

 

Você tem medo de sair da cena de vanguarda?

Muito. Eu estava tocando música com Masayuki Takayanagi, as pessoas que se reuniam em torno dele eram um pouco como os fundamentalistas de vanguarda.

Eu também desempenhei um papel para fortalecer essa tendência, da qual me arrependi mais tarde. É por isso que eu queria sair da comunidade. A partir desse momento, deixei de participar de um tipo de comunidade musical.

 

Acho que era muito raro que alguns fizessem isso naquele momento.

Sim, desde que me afastei de um tipo de música, os músicos de jazz me disseram que eu não era um músico de jazz, mas que eu era um roqueiro. Roqueiros diziam que eu era um jazzista. Para os músicos de noise, eu era improvisador, e para os improvisadores, eu era um músico de noise. Eles me criticaram com esses tipos de comentários, com os quais eu estava confortável, mas também me fizeram sentir solitário ao mesmo tempo. Eu não queria pertencer a nenhum lugar, mas gostava de todas essas formas musicais.

 

Pelo menos você gostou de sua liberdade, o que é excelente.

Não tenho certeza se tive liberdade. Mas eu não queria ser uma autoridade em nenhum tipo particular de gênero musical e também quero evitar o apoio à autoridade.

O músico de jazz japonês dos anos 60 e 70 também tocou em bandas de pop japonês para sobreviver ao cotidiano, mas eles acharam o fato desconfortável. No entanto, eu achei que tocar música pop, além do jazz, fosse muito excitante e fresco. Eu estava procurando pela música pop que esses músicos de jazz tocavam nas “back bands”. Eles conseguiram criar algo totalmente único. Isso é o que eu queria fazer também.

 

Você acha que Takeo Yamashita3, que você cobriu, teve algum tipo semelhante de conflito interno?

(Risos) Eu acredito que Yamashita não teve nenhum problema em trabalhar na indústria da música comercial. Pelo contrário, ele gostava de trabalhar no contexto comercial, então ele estava livre do que você chama de identidade de vanguarda. Quando era oferecido para fazer música para cenas de batalha dos monstros nos animes da TV, ele escolheu o “free jazz”. Eu poderia dizer que ele foi o cara que lançou a primeira gravação do free jazz japonês. Foi em 1967. Oficialmente falando, a primeira gravação japonesa de “free jazz” foi feita por Takayanagi em 1969. A experiência de Yamashita foi dois anos antes.

 

Ótimo! Parece uma técnica de sample utilizada por músicos eletrônicos atuais.

Provavelmente é porque a imagem é um pouco parecida com o sample por natureza. Quando você coloca música na imagem, você é livre para fazer o que quiser, desde que a música seja adequada. Eu também gosto de estar livre da minha música, quando eu faço música para a imagem. Eu tive uma atitude semelhante quando compus a música para o Amachan4. A música encorajando você a animar o Amachan foi a música mais adequada nesse contexto.

 

Em termos de criação, como você separa seu trabalho de colocar música em imagem? Você tem algum sistema para fazer isso?

Dependendo do horário, dedico-me a um projeto específico. Mas eu geralmente não separo a criação. Às vezes, uma ideia para uma música pop vem para mim depois de interpretar performances vanguardistas. Claro, isso não acontece comigo no palco.

 

Você armazena ideias de música?

Eu não armazeno. Eu coloco tudo que eu faço. Se eu armazenasse alguma coisa, eu provavelmente acharia chato depois. Em termos de criação de trilha sonora, é melhor improvisar em uma condição restrita.

 

Falando sobre armazenar ideias, você colecionava discos?

Até os meus 30 anos, eu colecionava muito. Mas parei de fazer isso por causa das limitações de espaço no meu apartamento. Meu quarto estava totalmente cheio e não havia espaço para dormir por causa dos discos. Eu acho que os tamanhos dos apartamentos em Tóquio não são para coleta de discos ou algo assim. Naquela época, eu me livrei de quase 70% dos discos e livros. Isso foi em 1999, e eu os vendi para a loja de discos mais próxima.

 

Isso deveria ser uma preciosa coleção de gravações.

No dia seguinte, quando eu vendi os discos, fui à mesma loja de discos para verificá-los e descobri que eles estavam fazendo apenas venda de discos com os meus discos de vanguarda (Risos). Em troca, ganhei deles quase 1 milhão de ienes (equivalente a 10 mil dólares) e comprei um laptop para fazer gravações em casa.

 

Que tipo de discos você manteve?

Eu diria que foram as primeiras gravações de John Zorn, Derek Bailey, Christian Markley e do velho pop japonês. Eu também me livrei de revistas que me cobriam.

 

 

 

4) ARQUIVAR


 

Você é diretor artístico do “Festival Internacional de Arte de Sapporo”5, certo?

Sim, eu fui. Houve muitas exposições que mudaram constantemente com a improvisação. Problemas diários, trabalhos dos cidadãos e acontecimentos da vida individual particular, o trem transformando-se em um trem barulhento, tudo na cidade foi incorporado ao festival, o que o tornou diferente de outros festivais.

No entanto, se eu mostrasse as peças de arte apenas a partir do presente, o público poderia perder alguns contextos, então preparei exposições de material de acontecimentos que revelaram as obras do artista e a história de Sapporo. Foi mais interessante do que o esperado.

Quando eu exibo os acontecimentos com sucesso, o público tem uma ideia melhor do porquê os artistas estão fazendo tal performance e fazendo tais obras.

Dessa forma, começo a estimular o público a pensar sobre a história a partir de uma nova perspectiva.

Eu vejo a história como muitos troncos atravessando e sendo despachados. É tridimensional, e é diferente da história que se origina de um único tronco grosso.

A história não é baseada em um evolucionismo linear. Parece diferente de cada perspectiva que você toma, e é por isso que eu acho importante o material de exibição. Por exemplo, quando você descreve a história do jazz, pode fazê-lo, referindo-se a Duke Ellington, Charlie Parker e Coltrane. Quando você faz isso, é como construir uma história baseada no evolucionismo. No entanto, a realidade não é tão simples assim. Por exemplo, os discos de Duke Ellington chegaram ao Japão e foram massivamente influentes para a música pop japonesa. É uma pequena história, mas a história é a coleção de micro-histórias. O mais importante é que mude sua superfície de onde você a vê. Quando você olha a história de perto, você pode encontrar a vasta e infinita riqueza que conecta o presente e o passado. Por isso, é importante como você trata os acontecimentos, abre uma porta para as histórias.

Com a era do computador, as pessoas tendem a pensar que o arquivo sobrevive automaticamente, mas não é o caso. Temos que manter e organizar o arquivo intencionalmente. Caso contrário, eles desaparecem completamente e com muita facilidade. Eu não tenho os panfletos dos meus shows de 10 anos atrás.

 

É muito emocionante pensar que a história acaba sendo uma coleção de micro-histórias.

Você começa a ver a infinidade da história mesmo quando olha para a história pessoal ou para o mini boomer. Quando você coleta esses fragmentos históricos, as coisas ficam tridimensionais. Neste momento, estamos vivendo na era em que comunidades diversificadas estão surgindo além de regiões e fronteiras. A atitude em relação a como você vê a história se torna ainda mais crítica nesse contexto e o arquivamento desempenha um papel significativo nela. Por outro lado, manter arquivos é um trabalho tão problemático e está além do que podemos fazer pessoalmente. Arquivos exigem apoio público, incluindo suporte financeiro.

 

O que fez você pensar sobre o arquivo dessa maneira?

Quando alguém continua se comprometendo com a expressão de vanguarda, outros pensam que ele tem interesse apenas no futuro, não no passado. Mas no meu caso, eu sempre tenho um enorme interesse no que os outros fizeram no passado e como eles me influenciaram. Mas quando me refiro ao trabalho de outros, eu tinha muita dúvida sobre abordá-los com uma perspectiva evolucionista linear. Ao mesmo tempo, quando comecei a tocar fora do Japão, muitas pessoas me perguntaram como a música tradicional japonesa me influenciou, o que me pareceu estranho. Esse tipo de pergunta me coloca na estereotipada história japonesa. Eu fui bastante influenciado pela trilha sonora de animes ou dramas de TV, música pop japonesa antiga, uma banda de rock amador formada por meus colegas no ensino médio ao invés da tradicional e sofisticada música japonesa.

Quando você se conecta com músicos do Leste Asiático ou do Sudeste Asiático, é importante olhar para a história pessoal ou a história local, não para a história nacional. Caso contrário, você pode cometer erros.

A razão pela qual cheguei a pensar sobre isso é que comecei a tocar com crianças com problemas mentais em 2005. Elas não tinham nenhum interesse na história musical que eu estava estudando. Para tocar melhor com eles, a única maneira de fazer isso é olhar atentamente para cada um deles. Além disso, o Grande Terremoto do Leste do Japão me obrigou a fazer isso. O que eu achava que sempre existiria desapareceu em um instante. Arquivos também desapareceram. O incidente me fez reconsiderar o conceito de história. A partir desse momento, comecei a sentir que o que é importante para mim são micro-histórias de pessoas que conheço.

Referindo-se a história acaba-se criando o futuro. Por essa razão, não quero cometer erros respeitando as grandes histórias preparadas por outra pessoa. É por isso que acho que o arquivo é essencial. No Festival Internacional de Arte de Sapporo, acredito que pude perceber o que disse há pouco até certo ponto.

 

Hoje em dia existem tantos festivais de arte no Japão. Como você se diferenciou dos outros festivais?

Realmente. No Japão, muitos festivais de arte começaram a surgir no século XXI. No Japão, não há uma longa história de festivais de arte. Porém, eles dizem que há um boom de festivais de arte agora. Uma das razões é que os festivais de arte revitalizaram com sucesso pequenas vilas ou cidades com uma economia lenta. Nós chamamos isso de “Machi-okoshi”, ou a revitalização de uma cidade. Eu considero isso positivo independente da causa dos festivais, na verdade muitos festivais de arte emocionantes aparecem no Japão neste contexto.
Sapporo já é uma cidade vibrante, que não requer arte como estímulo econômico. Por essa razão, eu me pergunto qual é o motivo do festival.
Isso me fez levantar o tema “O que é festival de arte?” e compartilhá-lo com todos os envolvidos. Isso proporcionou uma discussão pública e muitas pessoas criaram ideias interessantes, o que acaba por estabelecer o festival baseado na improvisação e arquivo, incluindo a participação dos cidadãos.

 

O diretor de arte anterior do festival foi Ryuichi Sakamoto, não foi?

Sim, acho que ter um músico como diretor artístico é raro, especialmente duas vezes seguidas. Eu assumo que a razão para isso foi porque organizei o evento “Bon Festival Dance” 6 na edição anterior do festival. Isso se tornou bastante popular entre os cidadãos. Depois que fiz isso pela primeira vez, o Bon Festival Dance em Sapporo se transformou no novo festival anual de verão.

 

Um importante artista sonoro japonês, Akio Suzuki7, também esteve envolvido no festival, certo?

Sim, convidei artistas como Akio Suzuki, Christian Markley e Gōzō Yoshimasu para expor e se apresentar. Eles sempre foram ótimas inspirações para mim. Eu tentei exibir seus arquivos o máximo possível. Além disso, foi importante para mim realizar a exposição de arquivos de Numayama Yoshiaki, que organizou concertos de música de vanguarda por mais de 30 anos em Sapporo.

 

Também, Yasunao Tone8 participou disto.

Por questões de saúde, ele não pôde comparecer ao festival, mas nós organizamos sua exposição e seu show. Eu posso dizer que ele é um verdadeiro pioneiro do tipo de música com a qual estamos comprometidos. Desta vez, realizamos seu show super barulhento em uma sala de concertos, usando inteligência artificial. Ele nos disse que não deveríamos usar luzes de palco porque eles faziam o som musical. Durante o concerto, o público estava livre para se movimentar, e o começo e o fim do show não eram claros. Essa foi uma experiência única.

 

É uma combinação interessante. Você está fazendo muitos tipos de música e Tone está tentando evitar qualquer tipo de música.

Comparado a ele, eu continuo fazendo música não importa o tipo de som que eu faça. Eu gosto de música, você sabe. Nesse sentido, Sachiko M não faz música porque não tem interesse em música. É por isso que Tone também mostrou um interesse significativo no som de Sachiko M.

 

O que você acha da influência da tecnologia na música?

Tem uma influência poderosa. Se não houvesse tecnologia de gravação, a maior parte da música atual não teria aparecido. Isso mudou drasticamente a maneira como ouvimos e fazemos música. Posso dizer que é difícil pensar em música antes da tecnologia de gravação. Nos anos 70, os compositores começaram a usar baterias eletrônicas e, nos anos 80, os bateristas começaram a tocar bateria como máquinas. Nosso corpo mudou devido à influência da tecnologia.

 

 

5) PROJETOS EM FUKUSHIMA E DE AGORA EM DIANTE


 

Como você começou seu Projeto Fukushima?

Logo após o Grande Terremoto do Leste do Japão em 2011, minha equipe foi para Fukushima. Fukushima é uma província grande e, é claro, não consegui chegar à usina nuclear. A cidade em que eu pude entrar era a cidade de Fukushima, que fica a 60 km da usina nuclear. É a cidade onde eu cresci. A poluição não foi tão devastadora como no bairro perto da usina. Mas havia opiniões divergentes sobre a possibilidade de continuar morando lá ou não.

Não havia política aparente do governo nem da prefeitura local. A cidade inteira parecia estar em uma espécie de depressão. Nesta situação, começamos a pensar em como sobreviver. Primeiramente, pesquisamos as medidas de proteção contra radiação e também iniciamos programas de TV on-line para transmitir o que não foi transmitido naquele momento. Nós trabalhamos juntos com os cidadãos e artistas. Com essas atividades, surgiu a ideia de realizar um festival na cidade de Fukushima. É o projeto chamado “Projeto Fukushima!”. A razão pela qual tentamos fazer isso foi que, para termos um festival, precisávamos consultar um especialista em radiação para medir os níveis de radiação nos locais do festival e muitos outros aspectos. Fizemos todo o processo de torná-lo aberto e transparente para que todos possam acessá-lo. Medimos os níveis de radiação nos alimentos que vendemos no festival. Nosso lema era começar a fazer as coisas por nós mesmos se o governo ou a prefeitura não pudessem fazê-las. Mais tarde, a prefeitura seguiu nosso exemplo e começou a medir os níveis de radiação nos alimentos e também iniciou medidas de proteção. Isso mostra que fizemos o que tínhamos que fazer. Nosso objetivo não era apenas realizar um festival de música, mas realizar um festival – começar a fazer o que é essencial e ter informações abertas e acessíveis.

Acima de tudo, o resultado mais proeminente do festival foi que as mentes das pessoas mudaram durante a organização deste projeto. Muitas pessoas ficaram tão devastadas que não tiveram a menor ideia do que fazer na situação. Com a participação no projeto, eles encontraram uma maneira de abordar a questão e seguir em frente. Isso me fez descobrir a razão fundamental pela qual realizamos um festival em primeiro lugar. O “Projeto Fukushima!” continua até hoje. Nos primeiros três anos, fui líder de projeto, mas agora participo dele como membro da equipe. Além disso, eu vou a Fukushima frequentemente para tocar com alunos do ensino fundamental e médio.

 

O começo deve ter sido bastante duro, eu suponho. Quero dizer, por causa da radiação.

Em primeiro lugar, preparamos 6000 metros quadrados de Furoshiki, um pano de embrulho japonês, e espalhamos por todo o chão. Furoshiki é algo que quase todo japonês tem em sua casa, e é para embrulhar coisas; eles são lindos também. Como todo mundo tem, pensamos que seria uma boa ideia coletá-los e espalhá-los pelo chão. Claro, você não pode evitar a contaminação por radiação por roupas, mas você pode evitar o césio que estava no chão. Ele teve a função de evitar que o césio voasse e se ligasse às pessoas. Furoshiki trouxe algo inesperado. Pessoas de todo o Japão nos enviavam Furoshiki. Inúmeros Furoshiki chegaram. Foi um trabalho árduo para costurá-los juntos, e muitos voluntários nos ajudaram. Foi assim que conseguimos costurar 6000 metros quadrados de Furoshiki. Ainda não consigo esquecer a cena em que cobrimos o chão com Furoshiki no dia do festival. Era tão bonito que tornava a atmosfera tão diferente e festiva.

Naquela época, senti por que temos festivais em um sentido real. Dois anos depois, iniciamos o “Bon Festival Dance”, que foi inspirado no tradicional festival japonês e também espalhamos o Furoshiki. A maioria dos locais em Fukushima tem menos níveis de radiação atualmente. Mas ainda continuamos usando o Furoshiki e dançando sobre ele. Eu sonho que se o festival continuar por 100 anos, ninguém saberia porque eles usam o Furoshiki. Mas alguém pode pesquisar e descobrir que o uso de Furoshiki no festival é devido ao desastre de Fukushima. Dessa forma, a cultura transcende a geração.

Estou muito curioso sobre como a tradição do festival emerge em geral. Na mesma época em que fiz projetos em Fukushima, comecei a frequentar com frequência os países do sul da Ásia para o projeto da Japan Foundation Asia Center. Isso me fez descobrir vários tipos de festivais nos países do Sudeste Asiático.

 

O que você acha da função da música nos festivais?

Depois de ver muitos festivais, sinto que a música é um componente de festivais ou rituais religiosos.

A música européia é isolada de outras atividades, nomeados festivais tradicionais, mas em alguns países asiáticos, incluindo o Japão no passado, havia uma postura muito diferente em relação à música. Eu começo a acreditar que a música é ótima não por ser independente de outras atividades, mas por coexistir com outras atividades e funcionar nelas. Essa ideia me influenciou muito em tocar música também.

Quando eu toco, penso menos no que quero tocar. Mais frequentemente, penso em que tipo de música eu posso fazer com as pessoas com quem eu toco e que tipo de comunidade ela pode criar.

 

Parece tão excitante, mas quando você estende sua definição de música ou de tocar música, provavelmente o projeto se torna realmente enorme, e talvez possa ser problemático tratar outros pequenos aspectos além do som ou da música.

(Risos) Meu mau hábito é tentar fazer coisas em larga escala. Eu tenho feito muitos projetos após o desastre de Fukushima. Eles começaram a ir além da minha capacidade. Então essa é uma das razões pelas quais eu vim para o Brasil, carregando uma guitarra sozinho. Eu precisava olhar para mim com calma e objetividade. Eu sou músico por natureza e, provavelmente, minha viagem atual é como voltar à minha origem.

 

Para qual aspecto você presta mais atenção quando improvisa.

Quando eu improviso, eu não me importo com o que posso verbalizar. Eu me concentro no eco, no espaço e nas condições do amplificador, provavelmente é isso.

Mas quando eu toco sozinho, eu me concentro no ritmo. Ele se expande e se contrai como o da música folclórica. Não é como o ritmo constante da música pop, nem o ritmo do hip-hop ou do samba. Enfim, eu não penso nisso enquanto eu toco, penso nisso antes e depois da performance.

 

Que tipo de artistas você acha interessante no Japão agora?

Makoto Oshiro10 e Takahiro Kawaguchi11. Makoto Oshiro tem um show no Chile este ano (no momento da entrevista). Eles não são artistas jovens, mas são muito empolgantes. Além disso, gosto de Tenniscoasts12. Eles não são o que chamam de improvisadores, mas são essencialmente improvisadores.

 

O que você gostaria de fazer a partir de agora? Que tipo de trabalho você quer realizar?

Meu projeto com a Japan Foundation Asia Center acabou. Mas quero continuar fortalecendo a rede nos países asiáticos. Eu posso dizer que é o meu trabalho de vida.

Em termos de trabalho, tenho menos interesse em criar um álbum, mas mais interessado em criar uma instalação. Eu acho que fazer um álbum é criar o espaço imaginário com dois alto-falantes, mas quando eu faço uma instalação, eu posso usar o espaço real. Isso me dá mais liberdade. Meu interesse pelo espaço me leva a instalações e shows em um formato único. Por exemplo, eu toquei com muitas crianças em Sapporo. Foi chamado de orquestra coletiva. Estava fora de controle, e eu mal sabia de onde vinha o som e quem o fazia. Esse tipo de experiência me dá ânimo.

No entanto, provavelmente eu direi coisas diferentes amanhã, pegue o que eu digo com um grão de sal (Risos).

 

 

Entrevistador:
Yama Yuki

 


Palavras de referência:

1 Ensemble Asia:
Projeto iniciado por Otomo em conjunto com a Japan Foundation Asia Center em 2014. Otomo foi o diretor artístico do projeto.
http://orchestra.ensembles.asia/

2 Derek Bailey
Derek Bailey é um dos mais influentes guitarristas de free jazz. Ele era ativo na cena musical de vanguarda desde os anos 60. Em 1976, ele instigou a famosa Word Company, um coletivo de improvisadores, ao qual muitos importantes artistas de vanguarda estavam relacionados.

3 Takeo Yamashita
Nascido em 1930, ele trabalhou para fazer trilhas sonoras de dramas de TV, animações e comerciais desde os anos 60. Ele compôs mais de 7.000 mil peças durante sua carreira.

4 Amachan
O drama de TV que foi transmitido em 2013 no canal de TV NHK. O drama tornou-se muito popular e fenômeno nacional no Japão.

5 Festival Internacional de Arte de Sapporo
É o festival internacional de arte iniciado em 2014 em Sapporo. Sapporo está situada em Hokkaido, que é a ilha do norte do Japão.

6 Bon Festival Dance
Bon festival é a cerimónia tradicional para acolher o espírito dos antepassados. Tradicional Bon Festival Dance é uma dança praticada durante o período. É uma tradição ampla em todo o Japão.

7 Akio Suzuki
Akio Suzuki é um artista sonoro pioneiro que está ativo desde os anos 60. Ele se apresentou nas principais exposições de arte, como Documenta, e sua instalação é exibida em todo o mundo.

8 Yasunao Tone
Yasunao Tone é um artista de vanguarda que participou do Fluxus nos anos 60. Desde 1972, ele trabalha em Nova York. Um de seus trabalhos mais significativos é a peça de som feita pelo som do CD danificado.

9 Furoshiki
Embrulho japonês tradicional. É amplamente utilizado desde o período Edo.

10 Makoto Oshiro
Makoto Oshiro é um artista sonoro. Ele usa muitos tipos de instrumentos feitos por ele mesmo em suas performances. Já se apresentou e expôs internacionalmente. Ele é membro de um coletivo de arte sonora chamado Natsu no Di Sankakkei.

11 Takahiro Kawaguchi
Takahiro Kawaguchi é um artista sonoro. Ele usa instrumentos de fabricação própria, e ele é um membro do Natsu no Dai Sankakkei junto com Makoto Oshiro.

12 Tenniscoats
Tenniscoats é uma banda pop indie. É composto por dois membros principais, mas colabora com muitos músicos, e o formato do grupo muda constantemente de acordo com a situação.



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