Experiências


Wataru Kikuchi 

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Programa Fellowship – relato de pesquisa e viagem

Wataru Kikuchi

1- Introdução

Passei de 10 de janeiro a 29 de fevereiro deste ano em Tóquio, como bolsista do Programa Fellowship de curta duração da Fundação Japão.

Como consta no seu site, a Fundação Japão tem como um de seus objetivos  “colaborar para um melhor entendimento do Japão no exterior e fomentar as relações entre o Japão e outros países, principalmente no âmbito acadêmico” (https://fjsp.org.br/estudos-japoneses/), e por meio do Programa Fellowship,  oferece aos pesquisadores acadêmicos da área de Estudos Japoneses do mundo inteiro a oportunidade de conduzir uma pesquisa no Japão (https://fjsp.org.br/programas/categoria_guia/estudosjaponeses/) .

Para os pesquisadores brasileiros, esse Programa tem sido fundamental não somente para fazer pesquisas in loco no Japão, mas também para promover intercâmbio acadêmico e se atualizar sobre os assuntos japoneses.

Pretendo expor, então, ao longo desse relato, um pouco dessa experiência como bolsista do Programa Fellowship, a pesquisa realizada e as impressões sobre o Japão atual.

 

2- Tema da pesquisa: xintoísmo

O tema da minha pesquisa foi o xintoísmo. É fácil constatar que ainda prevalece incompreensão sobre esse assunto no Brasil, inclusive há incorreções quanto a sua natureza, por exemplo, quando um dicionário de grande circulação o define como filosofia, ou se limita a mitologia ou animismo. Na academia brasileira, não há ninguém que se apresente como estudioso do xintoísmo, e essa realidade é refletida na escassez de publicações a respeito.

O meu envolvimento com o xintoísmo começou quando tive que orientar uma aluna que veio com proposta de pesquisa relacionada com esse tema, e me descobri completamente ignorante no assunto. Ainda, há algum tempo, é notório que muitos alunos que fazem a habilitação de japonês no curso de Letras ou estudam em qualquer curso de língua japonesa, do Brasil inteiro, tiveram seu interesse despertado pela chamada cultura pop, como mangás e animês, e nesses gêneros estão presentes alguns elementos que compõem o xintoísmo, notadamente originados da mitologia japonesa. Assim, é possível afirmar que há uma demanda crescente dos conhecimentos sobre o xintoísmo, inclusive de forma aprofundada no nível da pós-graduação. Dessa forma, a escolha do tema da pesquisa procurou atender a duas necessidades, como pesquisador e docente.

Um dos motivos da dificuldade de estabelecer uma definição do xintoísmo é que ele passou por várias fases, sem que uma fase necessariamente suplantasse a anterior, com seus traços marcantes coexistindo na atualidade. Assim, se precisar elencar um santuário xintoísta, citamos o do Ise, na província de Mie, sem, no entanto, diminuir a importância do Izumo Taisha, em Shimane. Estima-se que há cerca de 88 mil santuários no Japão, de todos os portes e graus. Mas essa hierarquização não reduz a importância do altar presente nas casas ou ainda daqueles construídos ao longo das avenidas de concentração de comércio, caso do Inari. O santuário principal, Fushimi Inari Taisha, fica em Quioto, e sua origem remonta ao período Nara, no séc. VIII. Ao venerar cinco divindades conhecidas como Inarishin, popularmente “Oinarisama”, o santuário Inari promove além da abundância na colheita e alimentação, sucesso na atividade comercial, e por isso, a sua presença constante na área comercial das cidades do Japão. Estima-se que há cerca de 30 mil santuários Inari ao longo do arquipélago japonês.

 

Santuário Ise

 

Outra manifestação mais evidente do xintoísmo são as festividades, Omatsuri, que ocorrem ao longo do ano, em torno de 100 mil, na menor estimativa. Muitos dessas festividades se tornaram um evento cultural e turístico, de modo que muitos participantes não visualizam sentido religioso, mas na sua maioria têm origem nas manifestações de culto às divindades locais e consagração da fertilidade e abundância na colheita. É por isso que nas festividades tradicionais verificamos a presença do andor (mikoshi), considerado veículo da divindade na sua presença no evento. Pude presenciar essa manifestação cultural e religiosa no Santuário Meiji, em 11 de fevereiro, dia de celebração da Fundação Nacional do Japão.

Dessa forma, tendo se iniciado na manifestação social e religiosa no Japão antigo, o xintoísmo se desenvolveu e se institucionalizou juntamente com o amadurecimento da sociedade japonesa. Mas as características de todas essas fases compõem o todo que define o xintoísmo. Brevemente, pretendo publicar um artigo tratando dessas fases que constituem o xintoísmo.

 

Mikoshi, no Santuário Meiji

 

3- Sobre a pesquisa e intercâmbio acadêmico e cultural

Fui recebido como pesquisador visitante internacional pela Universidade Kokugakuin, principal instituição de pesquisa e ensino sobre o xintoísmo no Japão. Meu orientador foi o Prof. Dr. Koji Suga, do Departamento de Cultura do Xintoísmo, especialista em teoria do xintoísmo e a relação deste com o poder. O professor foi bastante atencioso e embora estivesse ocupado conciliando a docência e vários cargos importantes de dentro e fora da Universidade, sempre esteve à disposição para quase que semanalmente sentássemos e discutíssemos o andamento da minha pesquisa, assim como diversos assuntos relacionados com o xintoísmo.

Nas primeiras semanas passei fazendo pesquisa bibliográfica na Media Center Acadêmica, onde está instalada a Biblioteca Central, que conta com o acervo de cerca de 1,6 milhões exemplares, segundo o site da instituição.

 

Media Center da Universidade Kokugakuin

 

Em 08 de fevereiro, tive a oportunidade de assistir às discussões do Fórum Internacional “New 21st Century Developments in Kokugaku Studies: exploring the possibilities for disseminating international and interdisciplinary research”, promoção do Centro de Estudos Japoneses da Universidade Kokugakuin. Kokugaku, Estudos Nacionais, envolve um amplo gama de áreas que se estende da literatura a estudos sobre o xintoísmo, e além de me inteirar das discussões atuais, pude conhecer e fazer intercâmbio com os pesquisadores da Coreia do Sul, China e Estados Unidos, além de pesquisadores de outras Universidades do Japão.

Nos meados de fevereiro, fui fazer pesquisa de campo em Nagano, Quioto e Mie. Tive oportunidade, então, de conhecer ao vivo as principais localidades religiosas do xintoísmo. Em Quioto, pude visitar os principais Santuários como Kamo, Fushimi Inari, Matsuo e Yasaka. Deslocando-me para Mie, fui a Ise, e observei de perto o principal Santuário do Japão, com toda a sua magnitude e sucesso ao público, turistas e fieis do xintoísmo.

Um pouco antes do retorno, em 21 de fevereiro, fui convidado pelo professor Suga para proferir a palestra intitulada “As Pesquisas sobre o Xintoísmo no Brasil – atualidade e perspectivas”, no 3º/4º Seminário Ordinário de Pesquisas da Associação de Estudos do Xintoísmo do Japão, ocasião em que, além de apresentar os resultados da pesquisa realizada no período, pude debater sobre as perspectivas de estudo no Brasil. É inevitável reconhecer que a pesquisa sobre o assunto no Brasil é praticamente inexistente, tendo como principal barreira o acesso à bibliografia. Por outro lado, as manifestações do xintoísmo estão presentes no cotidiano de muitas cidades brasileiras, na comunidade japonesa ou nas praças públicas e portais, que podem render estudos históricos e culturais.

Dessa forma, consegui realizar uma pesquisa bem sucedida em um período relativamente curto, conciliando a teoria e a prática, deixando várias frentes abertas para futuro retorno ao Japão, para poder me aprofundar em diversos pontos desse tema complexo e rico que é o xintoísmo.

 

4- Impressões sobre o Japão atual

Em 10 de janeiro, no trajeto do aeroporto de Narita até o centro de Tóquio, percebi que havia mais pessoas usando máscara do que das outras vezes da visita ao Japão. Mas isso se devia mais pela estação fria, os casos de influenza haviam aumentado na véspera, já era rotina dos japoneses usarem máscara, e nem imaginava que estava a três meses da pandemia que obrigaria o governo japonês a decretar estado de emergência. Devido ao conhecimento das experiências anteriores, a aglomeração, marca registrada de Tóquio, não me surpreendeu, mas o aumento dos casos de contágio por coronavírus principalmente na Europa já era noticiado diariamente, e nas semanas seguintes, às vezes, contemplava aquela multidão sem deixar de ficar espantado com a disposição e liberdade dos transeuntes.

Sem querer, a minha chegada ao Japão coincidiu com o início do feriado prolongado de três dias, incluindo o fim de semana e a celebração do dia da maioridade, no dia 13. Durante o mês de janeiro, permaneci num hotel perto da estação Kamata do JR, de onde pude fazer meus contatos com amigos e parentes, afinal, estava retornando à terra dos meus ancestrais depois de nove anos. Havia uma galeria com animado comércio, e na redondeza, muitos restaurantes populares (shokudô) e bares, no estilo japonês (izakaya), que faziam lembrar com certa nostalgia os primeiros anos do período Heisei. Mas o que me chamou a atenção foi que muitos desses estabelecimentos comerciais eram de redes que atuam no Japão inteiro, padronizadas nos serviços e pratos que oferecem. Se por um lado conferem tranquilidade aos clientes que sabem de antecedência o que vão encontrar nesses estabelecimentos, por outro, não há possibilidade de originalidade e surpresas. E nos estabelecimentos de fato locais, os proprietários são na sua maioria de idade avançada, demonstrando que não está ocorrendo a transição de gerações.

 

Proximidades da estação Kamata

 

Mais do que isso, o que me surpreendeu foram as lojas de conveniências com funcionários estrangeiros, de origem asiática. Até então, esse fenômeno verificado no interior, mas agora, mesmo em Shibuya, algumas lojas em determinados horários noturnos contavam com apenas esses funcionários, aparentemente ainda em fase de adaptação da língua e na maneira japonesa de atendimento ao público. O que me relataram também é que os estudantes japoneses, até então os principais candidatos nessa modalidade de trabalho temporário chamado arubaito, estão deixando cada vez mais de se disponibilizarem, reflexo da diminuição numérica em si, mas também pelo desinteresse.

 

Redondeza da estação Shibuya

 

Monumento do Chûken Hachikô

 

Pequeno santuário Inari, no bairro de Shibuya

 

A escassez de mão de obra na zona rural é mais dramática, pois nem mesmo os jovens estrangeiros se dispõem a morar e praticar agricultura nessas áreas. Assim, pela rápida passagem pela região nordeste do Japão, pude comprovar o que já conhecia pelas informações veiculadas pela mídia, a realidade do abandono de terras e esvaziamento de vilarejos.

É notório que o processo de envelhecimento da sociedade japonesa está mostrando sua fase aguda, e isso coloca um desafio para o Japão, que se mantém na posição de terceira potência econômica mundial, e que agora tem pela frente uma nova realidade provocada pela pandemia do coronavírus.

 

Um dos portais do Santuário Shimogamo (Kamomioya Jinja)

 

5- Conclusão

Conforme o relato acima, pude fazer uma pesquisa consistente e minha permanência relativamente curta de dois meses no Japão foi bastante enriquecedora. Para tanto, muito contribuíram todos os professores, assim como as pessoas relacionadas com o xintoísmo e a equipe de Estudos Japoneses da Fundação Japão matriz.

Cabe acrescentar que esse Programa concede um auxílio financeiro com valor fixo, que é entregue diretamente ao bolsista, e isso tem a vantagem de permitir que se faça o planejamento adequado e destine os recursos para finalidades desejadas do interessado. Assim, descontados os valores para alojamento e alimentação, pude destinar uma parcela significativa para aquisição de livros e dicionários, totalizando quase cinquenta exemplares.

Assim, para os futuros bolsistas, é aconselhável fazer um bom planejamento, não somente na escolha da instituição acolhedora e do orientador, mas também na destinação do valor que vai receber, como por exemplo, viagens e visitas a realizar, uma vez que o valor total da bolsa vem especificado na carte de aceite da Fundação Japão.

Por fim, gostaria de manifestar meus agradecimentos para a Fundação Japão, Universidade Kokugakuin e seus professores, por terem me proporcionado essa oportunidade ímpar de realizar a pesquisa e conhecer um pouco mais sobre o Japão. Certamente, é um programa que, além de capacitar os pesquisadores e docentes na ativa, oferece oportunidades e expectativas para as futuras gerações de estudiosos sobre o Japão.

 

Breve currículo do autor

Doutor em Ciências pelo Programa de Sociologia e mestre em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa, ambos pela Universidade de São Paulo. Desde 2005, é docente da Área de Língua e Literatura Japonesa do Departamento de Letras Orientais da FFLCH-USP, e a partir de 2013, também do Programa de Pós-graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa. Pesquisa temas sobre a sociedade e cultura japonesas, gramática e expressões de tratamento da língua japonesa.

Fotos: Acervo pessoal



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